Em 1994 publiquei
o livro "O Brasil Que Dá Certo", considerado
na época uma obra de ficção por aqueles
que previam o fracasso do Real em poucos meses. O último
capítulo tinha um título estranho para um livro
tido como otimista :" Porque a Inflação
Voltará Apesar do Plano Real".
"A inflação
voltará gradualmente desta vez, e não explosivamente
como nos outros planos. A razão não é
o déficit público nem a falta de reformas. A
razão é que os índices de inflação
superestimam a verdadeira inflação."(Coloquei
o capítulo inteiro e a planilha de cálculo na
internet.)
Os preços
usados nos índices de inflação são
coletados das prateleiras das lojas, e não os efetivamente
pagos pelas famílias. Fica mais barato pesquisar preços
diretamente em quarenta supermercados do que as compras efetuadas
por 300 000 famílias.
Na época
de inflação moderada era frequente encontrar
o mesmo produto por 90, 100, 110 e 120 nas lojas de bairro.
Nossas esposas pesquisavam e efetivamente compravam os mais
baratos, por 90, 100 e 110. O preço médio é,
portanto, 100. Os consumidores faziam de tudo para conseguir
os preços mais baratos, trocavam de marca, de produto
e de supermercado. O produto com preço de 120 ficava
mofando nas prateleiras até que a inflação
corroía o preço, e aí sim ele era vendido.
Mas os pesquisadores
não tinham como saber disso. Visitavam lojas, e não
famílias. Assim, incluíam os quatros preços,
vendidos ou não. O índice médio calculado
era portanto de 105, e não de 100. O índice
publicado era 5% maior do que o real. Com isso, os empresários
reajustavam seus preços 5% mais do que deveriam, os
juros pagos pelo governo ficavam 5% maiores que o necessário
e o déficit público também.
Neste exato momento
os lojistas estão aumentando os preços em até
30% para testar o mercado. As donas de casa estão rejeitando
esses abusos até por falta de dinheiro. Só que,
infelizmente, esses preços serão devidamente
anotados, coletados, publicados e disseminados pelos jornais
e noticiários de TV. Teremos nestes três meses
um índice de inflação superior ao da
inflação efetiva.
Um segundo erro,
que no fundo é o mesmo mas permite outra forma de elucidar
a questão, ocorre nos preços no atacado. Preços
no atacado são preços a prazo, que embutem de
um a três meses de juros e inflação. Incluir
os preços a prazo num índice de inflação
é no fundo incluir os preços de amanhã
na inflação de hoje.
Lembrem-se disso
quando os índices forem publicados. Não é,
portanto, de estranhar que em fevereiro o índice de
preços de atacado foi de 5%, o dobro do de varejo,
de 2,5%. O correto seria calcular o valor presente dos preços
a prazo, mas isso é técnico demais para muita
gente.
O problema não
é tão simplificado quanto exposto, nem tão
óbvio. É um erro insignificante de 1% a 1,8%
ao mês, mas seu efeito é cumulativo e explica
grande parte da espiral inflacionária brasileira nestes
últimos anos vinte anos.
Tampouco é
uma tese fácil de vender, pois a maioria das pessoas
está convencida de que os índices sempre foram
manipulados para baixo e não imagina um erro para cima.
Além do mais, há ferrenhos opositores dessa
tese, e com razão. Imagine ser tratado de uma inexplicável
febre alta e descobrir depois de trinta anos que o termômetro
é que estava com defeito.
A maioria dos
planos não deu certo justamente porque a inflação
era superestimada, efeito que só ocorre quando a inflação
parte do patamar zero, como agora.
O livro, repito,
escrito em 1994, terminava com a seguinte frase: "Com
o fim da indexação mensal, o Plano Real corre
menos perigo deste erro do que os demais. Pior, trata-se de
um problema fácil de corrigir".
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