O sonho de muitos
brasileiros é construir duas ou três casinhas e viver de aluguel
na velhice. Nos
últimos cinqüenta anos a população brasileira
cresceu de 50 para 176 milhões de habitantes, gerando
enorme
valorização dos preços de imóveis e terrenos para a construção.
Por isso, os imóveis eram sempre nossa primeira opção de investimentos.
Só que nos próximos
cinqüenta anos nossa população não vai mais crescer 300%,
mas somente 30%. E ainda bem. Isso significa que a necessidade
primária de novos imóveis ficará em menos que 0,5% ao ano.
Será que os imóveis se valorizarão como no passado?
Dez anos atrás
vendi um apartamento de um dormitório que me rendia um aluguel
e coloquei os 60.000 reais em ações de seis empresas, cotadas
em bolsa. Minha primeira alegria foi descobrir que a corretagem
em ações não chegava a 0,5% por transação, enquanto em imóveis
o valor da corretagem chega a 6%, mais Imposto sobre Aquisição
de Imóveis (Sisa), mais CPMF, mais o custo do cartório e do
advogado independente, que hoje é imprescindível, o que pode
elevar a brincadeira toda para 8%.
A segunda alegria
foi perceber que, enquanto meu inquilino me considerava seu
algoz, as empresas me chamavam de sócio e de parceiro. Meu
inquilino considerava meu aluguel uma despesa a ser reduzida
de tempos a tempos, já que o prédio envelhecia ano após ano.
Por outro lado, as ações valorizavam-se com o tempo.
Enquanto meu
apartamento ficava de três a quatro meses vazio entre um inquilino
e outro, nas empresas meu dinheiro não ficava parado um minuto.
Enquanto meu apartamento se desvalorizava 1% ao ano por obsolescência
e depreciação, as ações se valorizavam no mínimo 4% ao ano,
porque boa parte dos lucros é reinvestida na empresa, o que
muita gente não percebe. Normalmente, só 25% a 50% dos lucros
são distribuídos em dividendos.
Hoje, tenho pessoas
como Maurício Botelho, da Embraer, eleito um dos 25 melhores
executivos do mundo, trabalhando para mim. Ao contrário de
meu ex-inquilino, que vivia desempregado e atrasando o pagamento.
Por isso, metade
das famílias americanas possui ações em vez de imóveis de
aluguel, enquanto no Brasil menos que 3% investem em ações
de forma significativa. Lá, os trabalhadores podem comprar
seu imóvel, porque todos investem em ações que geram duplamente
empregos, nas empresas e no setor de construção. Aqui, porque
preferimos investir em imóveis sem risco, em vez de ações
que rendem mais por terem maiores riscos, só geramos empregos
no setor de construção, mantendo os salários baixos e condenando
o trabalhador brasileiro a alugar um imóvel para sempre.
A precaução que
recomendo é nunca comprar ações justamente no meio de uma
alta, como agora, e sempre escolher com cuidado a ação a comprar,
os mesmos cuidados que deve seguir quem compra um imóvel.
Culturalmente
o brasileiro acredita em imóveis por causa do medo da inflação,
além do fato de que "imóvel ninguém rouba". Mas empresas em
bolsa são também imóveis, e elas se protegem muito bem da
inflação, e também ninguém as rouba. As ações ficam custodiadas
na própria bolsa.
Do rendimento
anual do aluguel você precisa descontar o custo do corretor
do imóvel, do cartório, do administrador imobiliário, do corretor
do inquilino, do pintor, do advogado independente, dos atrasos,
da inadimplência, dos aborrecimentos, da depreciação do imóvel,
da manutenção obrigatória, do aumento do IPTU. Quem fizer
os cálculos vai descobrir que no fim sobra bem menos do que
se imaginava.
Há inúmeras ações
que dão 5% a 9% só de dividendos, além da valorização. Óbvio
que existem algumas que perdem 50% do valor, mas tem imóvel
que também vale a metade depois de descontar a inflação ou
a valorização do dólar quinze anos depois. Mas o risco de
seis ações caírem pela metade é muito menor, por isso nunca
coloque todos os seu ovos em um único imóvel, com exceção
do seu. Ter o próprio imóvel é uma paz de espírito que recomendo
a todos.
Tente vencer
essa nossa barreira cultural começando ao poucos, aplicando
5.000 reais numa ação que dê bons dividendos, apenas para
se acostumar com a bolsa e com a idéia de que não só de aluguel
vive um aposentado.
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja,
Editora Abril, edição 1830, ano 36, nº 47 de 26 de novembro
de 2003, página 30