Quem quiser
viver da indústria e do comércio terá
de se conscientizar
de que as coisas mudaram. Ninguém mais opera exclusivamente
nos setores do comércio e da indústria. Na realidade, esses
dois setores dependem dos serviços que prestam, não dos produtos
que entregam. O mundo empresarial de hoje
é o mundo dos serviços.
A grande maioria
das empresas ainda não percebeu esse fato ou ainda não está
preparada para essa nova era. Poucas estão organizadas e treinadas
para servir o outro, nesse caso o cliente. As companhias de
sucesso serão as empresas que eu chamaria de "preparadas para
servir".
Transformar empresas
para servir é um grande desafio, e, por razões históricas,
administradores profissionais terão de promover uma mudança
cultural de enormes proporções. Herdamos da cultura portuguesa
a visão de que servir tem a ver com servidão, um fardo, uma
obrigação a ser evitada. Servir o outro era visto nessa cultura
como uma penalidade, algo a ser evitado a todo custo.
Essa mentalidade
tem muito a ver com os quase 400 anos de tradição escravocrata,
em que se importavam escravos justamente porque servir era
impensável. Tanto assim que o Brasil foi um dos últimos países
a abolir a escravidão.
Por essas razões
históricas, o Brasil ainda vive a resistência a servir os
outros. Servir o outro está associado a servilismo, a serviçal,
a subserviência, termos absolutamente negativos. Muito distante
do ideal cristão de servir como finalidade maior da existência
humana.
Em culturas em
que não houve a escravidão, servir o outro é um prazer, é
algo feito de bom grado, incentivado e remunerado. Um comportamento
altruístico que gera o círculo virtuoso da reciprocidade.
Como mudar esse
pensamento dominante e hegemônico no Brasil? A maioria dos
brasileiros, inclusive muitos intelectuais, quer ser servida,
e não servir. Quer todos os seus direitos, sem pensar nas
obrigações.
Que ações uma
empresa ou uma repartição pública poderá efetivar para se
transformar numa organização preparada para servir os outros?
Uma das saídas que recomendo é contratar funcionários que
tenham sido voluntários em entidades beneficentes. Isso porque
não há seminário, palestra motivacional ou treinamento que
induza alguém a mudar de postura. É uma característica pessoal
e cultural. Funcionários que tenham sido voluntários mostram
predisposição para servir, coisa rara neste país.
Existem no Brasil
mais de 2.000 entidades sem fins lucrativos que precisam de
trabalho esporádico e eventual. São 2.000 entidades que sabem
muito bem como servir o outro e mostram claramente que isso
pode ser um trabalho digno e muito estimulante. Incentivar
seus funcionários a ser voluntários é um primeiro passo para
aperfeiçoá-los na atuação no mundo dos serviços.
Ser voluntário
abre uma oportunidade para funcionários que normalmente estão
bem distantes do foco da empresa, como os auditores internos,
se envolverem nas questões mais humanas e sociais. O que um
auditor interno tem para contar de interessante aos filhos
na conversa depois do jantar? Que descobriu cinco notas fiscais
frias ou mais um desfalque no almoxarifado?
"Sexta-feira,
dia que reservo para o trabalho voluntário, é uma ocasião
em que fico de bem com a vida e comigo. É minha terapia",
disse-me um auditor interno após a introdução do trabalho
voluntário em sua empresa. O trabalho voluntário não ultrapassa
a média de três horas por semana, mas muda significativamente
a vida dos funcionários.
Há oito anos
criei um site que aproxima entidades e potenciais voluntários,
www.voluntarios.com.br. Naquela época, ninguém sabia o que
era uma ponto com, muito menos uma ponto org, razão de nosso
sufixo comercial. É um belo lugar para começar.
Se ensinarmos
as pessoas que servir o outro não é degradante, mas, pelo
contrário, um raro prazer, construiremos uma sociedade sólida
e uma plataforma de exportação de serviços. Criaremos uma
nação de cidadãos compromissados com o cliente e com o social.
Vamos começar hoje a aprender a servir o outro em vez de somente
nos servir.
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja,
Editora Abril, edição 1850, ano 37, nº 16, 21 de abril
de 2004, página 20