É assustadora
a confusão disseminada pelo jornalismo econômico brasileiro.
Quase todos os jornais estamparam como manchete de primeira
página a recente decisão do Comitê de Política Monetária do
Banco Central (Copom) de manter os juros devido à "volatilidade
externa".
A verdade é que
ninguém sabe se o Copom manteve
os juros. Para dar essa notícia
teremos de esperar um ano inteiro e aí verificar qual foi
a inflação do período e descontá-la da taxa do Copom. Só então
saberemos o nível dos juros deste país, para tomar, tardiamente,
as decisões financeiras apropriadas.
Aliás, uma das
razões dos juros altos é justamente esta: ninguém sabe ao
certo qual será o verdadeiro juro que receberá dos títulos
públicos nos próximos doze meses, um absurdo monumental.
Desde 1994, o
Brasil adotou o chamado nominalismo econômico, em que os juros
dependem da inflação futura, abandonando o realismo econômico
de até então, quando os juros eram reais e não nominais.
Depois de 1994,
todo investidor é obrigado a chutar, prever, adivinhar a inflação
futura embutida na taxa do Copom. Ninguém tem mais certeza
da inflação, nem dos juros. Como fruto dessa incerteza, os
aplicadores acrescentam um prêmio de risco elevadíssimo para
se precaver.
Se usarmos a
inflação de maio como indicativo para o ano, o IGP-10 apontava
uma inflação anualizada de 15%. Comparado com os 16% da taxa
do Copom e descontado também o imposto de renda, o juro anual
será menor do que zero, um juro real negativo. Por isso, temos
hoje fuga de capital e volatilidade no câmbio. Ninguém quer
perder dinheiro.
Como nada disso
é noticiado pela imprensa, muita gente leiga fica criticando
o elevado nível de juros oferecidos pelo Estado, quando a
verdade é outra, e vive afirmando que estamos pagando 9% do
PIB em juros, quando atualmente o que se paga está mais próximo
de 0% do PIB, o extremo oposto.
Antes de 1994,
para quem não se esqueceu, os títulos da dívida interna eram
precificados por seus juros reais, e não pelos nominais como
agora. Infelizmente, o governo FHC, não entendendo a essência
do Plano Real, reimplantou o nominalismo econômico, cuja primeira
conseqüência foi aumentar o risco e a incerteza quanto aos
juros futuros. Na era do realismo econômico, os juros eram
menores, justamente porque os juros reais eram transparentes
e previamente conhecidos.
Quem está criando
essa volatilidade toda não são os investidores estrangeiros,
mas essa política econômica nominalista, que permite que o
juro real flutue mês a mês, de forma imprevisível, numa volatilidade
made in Brazil, que aumenta nosso risco à toa.
Tenho um título
brasileiro de 1907 com juros de 4% ao ano, quando o capital
era escasso e o Brasil, um fim de mundo. Por que pagamos mais
do que o dobro hoje, num mundo com capital abundante?
Os 4% de 1907
eram reais e não nominais, eram denominados em barras de ouro,
na época a melhor garantia contra a inflação, e rendiam 4%
de juros transparentes e sem incertezas. Foi a eliminação
do padrão ouro que introduziu o nominalismo econômico e resultou
na recessão de 1929.
Para piorar essa
situação, o governo FHC introduziu o nominalismo econômico
também na taxação dos juros. Hoje, ninguém sabe ao certo como
os juros serão taxados no final da aplicação, depende da inflação
futura. O imposto se tornou volátil, pode ser 20% do rendimento
dos juros, se não houver inflação, pode ser 50%, 60% e até
80%, se a inflação for elevada. Mais um risco que o investidor
acrescenta aos juros.
O nominalismo
econômico foi responsável pela crise da dívida externa mundial
de 1983, pelo enfraquecimento do sistema bancário internacional,
pelos equivocados Acordos da Basiléia, pelo surgimento dos
fundos especulativos, pela volatilidade do nosso Bônus 40,
pela aceleração da inflação, enfim, pela maioria de nossos
problemas.
O abandono dessa
escola nominalista reduziria de imediato nosso juro, traria
títulos com juros precificados, como todos os demais produtos
deste país, com uma taxação clara e conhecida. Temos muitos
economistas competentes da escola realista, e eles são muito
facilmente identificáveis. Basta perguntar qual o juro determinado
pelo Copom que eles respondem: "Honestamente, não sei".
Daqui a um mês,
quando noticiarem que o Copom "baixou" o juro, lembrem-se
deste artigo. Vocês só saberão a verdade no ano que vem.
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril,
edição 1857, ano 37, nº 23, 9 de junho de 2004, página
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