Há mais de quinze
anos centenas de engenheiros vêm avisando que faltaria energia
elétrica se o Brasil voltasse a crescer. Mas será que o Brasil
voltaria de fato a crescer? Foi a resposta a essa questão
que tomou todos de surpresa.
Em 1993, quando
a inflação batia 30% ao mês, corri o Brasil dando palestras
que previam o fim da inflação e dez anos de crescimento econômico.
Os economistas na platéia caíam em gargalhadas, cumprimentavam-me
no final pela excelente piada.
Em 1994, publiquei
essa previsão em VEJA e no livro O Brasil que Dá Certo. À
época, nove em dez economistas deste país pintavam o pânico.
Da esquerda à direita diziam que o Real era um plano eleitoreiro
e que a inflação voltaria. Rudiger Dornbusch correu o mundo
prevendo um efeito tequila. Roberto Macedo escrevia A Crise
Está Aí. Investir em hidrelétricas num clima desses?
Muitos jornalistas,
infelizmente, acabaram dando mais espaço aos que aconselhavam
investir em dólares que aos poucos engenheiros e administradores
que alertavam para a necessidade de investir em usinas elétricas.
Com a redução pela metade do preço das geladeiras e dos televisores
para vender o dobro, aumentamos o consumo de energia sem aumentar
o PIB.
Fomos pegos de
surpresa pelos nossos economistas, pelo nosso Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão, pelo nosso Ministério de
Minas e Energia, pelo Ministério da Integração Nacional, pela
Aneel, pela Eletrobrás, cinco órgãos de planejamento e integração
social. Estamos vendo, lamentavelmente, desorganização, burocracia
e manutenção de interesses políticos.
Aqueles que querem
manter esse modelo de planejamento centralizado, achando que
o Estado decide e planeja melhor que uma sociedade civil organizada,
precisarão antes responder à questão: como é possível tantos
órgãos de planejamento serem pegos de surpresa? Convocaram
Pedro Parente para criar um Conselho de Planejamento para
planejar os vários órgãos de planejamento.
Antes de publicar
meu livro, tomei o cuidado de analisar a matriz energética
deste país. As respostas que obtive eram tranqüilizadoras.
Com um mercado de capitais forte e regras claras para a construção
de termelétricas, que requerem somente dois anos para ser
construídas, não haveria tantos problemas.
Infelizmente,
o governo minou nosso mercado de capitais ao implantar a CPMF
e a Lei Kandir, e agora dependemos de capital externo e indexadores
em dólar.
Muita gente tem
responsabilidade por essa falta de energia, os economistas
são os menos importantes. Previsões nunca são precisas, claras
nem contundentes. Por isso, países que dão certo criam regras
claras, e não planejamento claro. O grande culpado na realidade
é nossa eterna visão de que o Estado planeja melhor que a
sociedade civil organizada. Por que não falta mais telefone
neste país? Por que ninguém precisa mais esperar dois anos
por uma linha telefônica, como antigamente?
Se você ainda
acredita que o Estado decide melhor e estava disposto a esperar
dois anos por uma linha telefônica, então, por coerência ideológica,
não tem do que reclamar nestes dois anos que ficaremos sem
luz elétrica.
Muitos candidatos
à eleição de 2002 culparão a privatização das empresas de
energia pelos apagões, esquecendo que 80% da geração está
na mão do Estado. Argumentarão que teriam decidido melhor,
planejado melhor que a sociedade civil organizada. A escolha
é sua.
Só que agora teremos
de ficar esperando as turbinas da Califórnia serem entregues,
para só então entrar com nossas encomendas, tudo graças ao
nosso modelo de planejamento centralizado.
Publicado na Revista
Veja, Editora Abril, edição 1702, ano 34, nº 21 de 30 de
maio de 2001, página 22
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