Alguns
economistas estão espalhando pânico, dizendo que a dívida
interna é impagável qualquer que seja o vencedor na próxima
eleição. "Juros de 18,5% sobre uma dívida que chega a 55%
do PIB são uma bomba-relógio" é o principal argumento. Vejamos
alguns dados que infelizmente ninguém está
espalhando e darão
um certo contraponto.
A
dívida interna no governo Fernando Henrique Cardoso aumentou
de fato mais que 50%, mas este governo também elevou em 100%
o imposto de renda sobre os ganhos financeiros. Pagam-se em
torno de 40% de imposto sobre os juros recebidos, os 20% de
imposto na fonte incidem hoje sobre os juros mais inflação,
e não sobre o juro real, como antigamente, algo que todo mundo
está esquecendo de mencionar.
Ficou mais fácil para o governo pagar esses juros, não mais
difícil. Um aplicador médio paga imposto de renda mais CPMF,
o que reduz o custo líquido para o governo para 14,5% ao ano,
e não esses 18,5% que estão aí.
Qual a lógica de embutir 40% de imposto na taxa de juro, para
depois recolher de volta esses mesmos 40% como imposto? Eu,
honestamente, não sei. Só sei que assusta o mundo inteiro.
O segundo ponto que quero lembrar a todos que estão em pânico
é que esses 18,5% considerados exorbitantes não são juros,
mas sim a soma de juros e inflação. E inflação não é juro,
mas uma amortização antecipada da dívida. Supondo que a inflação
futura seja entre 6% e 8%, a dívida interna será corroída
por essa mesma inflação, e será mais fácil de ser paga. Se,
por hipótese, pagarmos esses juros com inflação por trinta
anos, a dívida interna brasileira será corroída todo ano,
até ser totalmente corroída, e cairá para 0% do PIB, ou quase
zero. Você acredita naqueles que estão espalhando que 0% da
dívida seja impagável?
Qual a lógica dos economistas em dificultar a vida de todos
e do governo em particular, incluindo a inflação nos juros
pagos a curto prazo, e facilitar a vida dos governos de oposição
que pagarão a dívida a longo prazo corroída pela mesma inflação?
Eu não entendo essa lógica, mas é isso que os economistas
do mundo vêm fazendo desde 1932.
Subtraindo a inflação futura de 8% e os 4% de imposto, o custo
efetivo para o governo dessa dívida interna cai para 6,5%
de juros ao ano, um número bem mais realista e confortador
que os juros mais inflação e impostos de 18,5% publicados
nos jornais.
Algum leitor acredita que 6,5% ao ano de juros, o juro da
caderneta, seja uma taxa impagável a longo prazo? Pode até
ser, se o governo não conseguir esse retorno em termos de
impostos futuros, mas ultimamente a arrecadação só tem aumentado.
Para acalmar os que lêem o noticiário econômico, não é correto
associar, como fazem os economistas, esses juros de 18,5%
ao ano com essa dívida de 55% do PIB. Estão usando dois pesos
e duas medidas. Se você usar os juros dos economistas de 18,5%
ao ano, tem de associar uma dívida de longo prazo de somente
0% do PIB, pois ela será corroída pela inflação embutida nos
juros. Você pode continuar achando que o juro é absurdamente
alto, mas tem de ter a honestidade intelectual de avisar os
jornalistas e a opinião pública de que parte desses juros
está amortizando a dívida dos futuros governos.
Se você usar os juros dos administradores, que é o juro real
de 6,5% ao ano, a dívida permanece em 55% do PIB, pois não
será mais corroída ano após ano. Agora você terá de julgar
se 6,5% é elevado ou não, e se sobraria um pouco mais de dinheiro
para reduzir a dívida amortizando-a ao longo dos anos. Cada
um avalie por si.
Temos duas formas legítimas de observar o mesmo peso financeiro,
mas estamos misturando o pior peso dos dois. No mundo nominal
do economista o juro é alto, mas a dívida é corroída. No mundo
real do administrador o juro é baixo, só que o valor da dívida
tem de ser devolvido como contraído. O que não é correto é
usar o maior peso de cada medida, 18,5% de juros e 55% de
dívida, e assustar a galera, o que eleva o juro.
Alguns leitores estarão discordando de minha estimativa de
inflação, que seria muito alta. Pode ser, o tempo dirá. Mas
não é estranho um país onde para saber o juro é necessário
contratar um especialista para estimar a inflação? Essa incerteza
não aumenta o juro desnecessariamente? Voltarei ao assunto
no mês que vem.
Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista
Veja, Editora Abril, edição 1757, ano 35, nº 25, 26 de junho de 2002, página 20.