| Ensinando
a Pescar
Uma
das frases mais divulgadas por empresas socialmente responsáveis
é "Nós não damos o peixe, nós
ensinamos a pescar". Um dos conceitos mais valorizados
por intelectuais, e especialmente por professores, é
que ensinar a pescar é importante, dar
o peixe não
é. São pessoas que se colocam contra o assistencialismo,
a caridade e a filantropia. Acham
que o assistencialismo é
nocivo, que cria dependência
e reduz a auto-estima.
Existe atualmente
enorme preconceito contra
entidades que dão assistência,
como aquelas que cuidam de moças solteiras grávidas
e as inúmeras entidades que servem sopão aos
famintos. De uns anos para cá, doadores estão
deixando de ajudar entidades assistencialistas – hoje
as empresas não querem patrocinar entidades que oferecem
teto a moradores de rua, olham feio para o Fome Zero. A maioria
das empresas socialmente responsáveis está sendo
induzida a patrocinar prioritariamente projetos que "ensinam
a pescar". E aceita sem pestanejar porque são
projetos que proporcionam elevado retorno sobre o investimento.
Eu vou defender
as entidades que prestam assistencialismo à moda antiga
e tentar ajudá-las a reverter a onda que estão
sofrendo, e à qual muitas não estão resistindo.
O ser humano
tropeça muitas vezes na vida. Já vi o desespero
de mulheres abusadas, já vi pessoas humildes entrar
em pânico porque os filhos contraíram câncer.
Essas pessoas não precisam aprender a pescar. Elas
precisam de assistência, carinho e compaixão.
Alcoólatras precisam de ajuda, um ouvido amigo, e não
de cursos sobre os efeitos do álcool. Dependentes químicos
não precisam de cursos de "geração
de renda", eles precisam de compaixão, colo e
um ombro carinhoso para poder readquirir forças para
se reerguer SOZINHOS. Órfãos, paraplégicos,
portadores de hanseníase ou síndrome de Down,
além de um curso de três semanas, precisam de
atenção dedicada anos a fio.
Todo ano analiso
mais de 400 ONGs e descobri algo muito constrangedor. Nas
organizações que fazem "mero assistencialismo",
80% dos recursos doados são revertidos em uma cadeira
de rodas, em óculos para um deficiente visual ou em
um prato de comida. Ou seja, o dinheiro vai para quem precisa,
enquanto nas ONGs que "ensinam a pescar" 85% das
doações terminam no bolso dos professores, não
no bolso dos alunos carentes. Por que professores não
podem ser voluntários sem receber nada, como os outros?
Alguns, felizmente poucos, cobram fortunas dessas entidades
para dar aulas de gestão do terceiro setor e nem ficam
vermelhos quando em sala de aula enaltecem o trabalho voluntário.
Hoje as empresas
socialmente responsáveis estão usando critérios
capitalistas para escolher projetos sociais, querem "investir",
querem "retorno", querem "alavancar".
Por isso, adoram projetos que ensinam a pescar, porque o "retorno
sobre o investimento" é elevado. Com esses critérios
tipicamente neoliberais, nenhuma empresa investe mais no velho,
no tetraplégico, no cego, porque "não compensa".
Empresário só "investe" em crianças,
danem-se os doentes terminais. É o neoliberalismo social
sobrepujando o humanismo cristão.
Não sou
contra ensinar a pescar, quero deixar isso bem claro. Fui
professor por trinta anos, precisamos de ambas as posturas
sem dúvida alguma. Só que a maioria das entidades
que fazem "mero assistencialismo" também
ensina a pescar como parte da recuperação, mas
isso os intelectuais nunca divulgam. O que me preocupa é
a enorme ênfase atual na primeira atitude em detrimento
da segunda.
Precisamos reverter esse preconceito, precisamos dar valor
àquelas entidades que prestam assistência a órfãos,
paraplégicos, portadores de hanseníase, síndrome
de Down, cegos, doentes mentais, velhos, vítimas de
estupro e abuso sexual. Lamento dizer que boa parte de nossos
problemas sociais não é resolvida em sala de
aula, por isso temos de manter o equilíbrio.
Se sua empresa
é uma dessas que fazem questão de não
dar o peixe e somente ensinam a pescar, repense sua posição.
Muita gente necessitada vai preferir o apoio e a mão
amiga de sua equipe a umas brilhantes aulas.
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril,
edição 1869, ano 37, nº 35, 1º de setembro de 2004, página
20
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fonte www.kanitz.com.br |
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Repercussões |
Sou de opinião que à empresa cabe melhor
o papel de ensinar a pescar e ao governo
o de dar o peixe. Ensinar a pescar é uma
atividade que pode ser planejada, orçada
e pode guardar um melhor relacionamento
com o faturamento. Dar o peixe, como nos
casos citados, não tem a mesma característica.
E por falar nisto, o que o governo faz com
a verba que recolhe para esta finalidade?
joao@sinergica.com.br
Ouvi
um episódio de um menino que desmaiava
de fome na sala de aula. Vai aprender a
pescar como? Realmente, tem que ensinar
a pescar, mas isso é para situações
não-emergenciais, muito diferentes
do nosso país de hoje.
Alexandra L. Szafir
Entendo que há os que necessitem de
assistência, os que necessitam de ensino,
os que necessitam de caridade ou colo e aqueles
que precisam de um sacolejão para entrar
nos trilhos. Assim, creio que a questão
deva ser "Faça o bem, mas veja
lá a quem!"
Paul
Robert Bergami
Como
a principal busca do ser humano é o equilíbrio
quero acreditar que no país em que vivemos
é impossível trabalhar sem ser
assistencialista, mas também é
possível até mesmo no assistencialismo
puro, ensinar a pescar.
Vadilson
Marques de Lima
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e-mails: na
medida do possível, tentaremos responder a todos os
e-mails referentes aos artigos.
artigos@kanitz.com.br
Questões:
Qual o conceito de ensinar a pescar?
Como escolher projetos sociais?
O que é assistencialismo?
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