Eu já
não entendo mais nada. Há mais de vinte anos
estou escrevendo artigos sobre um erro monumental que tem
aumentado a percepção do risco Brasil à
toa, elevando os nossos juros à toa, e a impressão
que tenho é que ninguém lê. Ou então
estou escrevendo bobagens nesses anos todos e ninguém
tem a coragem de me dizer.
O governo e a
imprensa acabam de divulgar que o
"custo dos juros no
governo Lula foi de nada menos que 150 bilhões de reais
em 2003, quase 10% do PIB". Mais uma vez repetem o erro
da escola nominalista de economia, com sérias conseqüências
econômicas, um erro para mim tão óbvio
e banal, daí minha aflição.
A inflação
embutida nos juros não é um custo, como afirmam
os nominalistas, e sim uma receita! Todo mundo sabe que inflação
beneficia o devedor. A mesma inflação que aumenta
os juros, um custo, também corrói a dívida,
portanto uma receita que anula esse "custo" alardeada
aos quatro cantos do planeta.
Críticos
foram rápidos em apontar que Lula aumentou os juros
para combater a inflação, mas ninguém
saiu a público para lembrar que essa mesma inflação
"corroeu" a dívida nos mesmos 9% da inflação,
uma receita para o governo de aproximadamente 70 bilhões
de reais. Ou seja, o "custo" dos juros cai pela
metade, algo que todo realista está cansado de saber.
Essa dívida,
na verdade, nem foi "corroída" como acabo
de afirmar. Na realidade, Lula pagou efetivamente 9% da dívida
interna, com esses 150 bilhões chamados erroneamente
de "custo". Por isso, esses 150 bilhões estão
tão elevados: eles incluem uma parcela de amortização
ou redução da dívida. Só que reduzir
dívida não é custo, é somente
uma devolução.
Vocês que
estão com medo de um calote ou espalhando por aí
que o calote é inevitável esquecem que o governo
Lula pagou nada menos que 9% da dívida interna em 2003.
Nesse ritmo, em dez anos a dívida acaba, mas isso não
vira notícia.
A dívida
interna não cai como porcentagem do PIB porque os investidores
sabem que esses 9% não são renda, e eles não
são bobos em gastar o que é simples "ilusão
monetária" nominalista. Por isso, recompram títulos
do governo em vez de torrar sua poupança em consumo
e divertimento.
Em 1981 escrevi
mais de cinqüenta artigos mostrando este mesmíssimo
erro, naquela época referente à dívida
externa. A inflação americana subira para 12%,
elevando os juros para 16,5% ao ano, os mesmos juros de hoje
no Brasil e pela mesma razão.
Infelizmente,
um dos mais importantes economistas de então, Celso
Furtado saiu alardeando que a dívida externa era impagável
e pregou a moratória. Só que estávamos
pagando a dívida via inflação embutida
nos juros. E os juros
reais em 1981 nunca ultrapassaram 4% ao ano, algo que todos
sonham em ver aqui de novo. Ou seja, estávamos pagando
uma dívida que alguns diziam impagável.
O problema era
mais contábil que financeiro, só que ao alardear
uma informação errada e assustadora aumentaram
o risco Brasil. Minha proposta na época era simplesmente
indexar a dívida externa, e assim a inflação
americana embutida nos juros deixaria de ser devida no ato,
aliviando nossa balança de pagamentos. Uma medida realista
e não nominalista. Mesmo
o governo americano adota hoje essa idéia com seus
inflation protected securities, mas o governo brasileiro
não se convenceu disso até hoje.
Mas existe outro
custo que não é custo. Todo mundo sabe que dos
16,5% dos juros é deduzido no ato o imposto de renda
na fonte e que no fundo o governo paga 13,2% de juros, e não
os 16,5% publicado nos jornais.
Ou seja, dos 150
bilhões apresentados ao Senado pelo próprio
governo como "pagamento de juros", nada menos que
30 bilhões são retidos imediatamente como imposto
de renda na fonte. Ou seja, o custo líquido para o
governo é bem menor.
Deduzindo o imposto
na fonte e a amortização inflacionária,
o custo da dívida é de somente 40 a 50 bilhões.
A conta é bem mais complicada que essa simplificação
didática, mas chega a 3% do PIB, e não aos 10%
noticiados por aí.
Continua um valor
elevado, mas agora sabemos por quê. O
que me aflige é pensar que durante todos esses anos
eu não me expliquei direito. Então, que alguém
me explique, porque eu já não entendo mais nada.
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja,
Editora Abril, edição 1836, ano 37, nº 2, 14 de janeiro
de 2004, página 24