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Paz
de Espírito
A maioria das
entidades beneficentes, aquelas que ajudam os outros, vive
intranqüila. A cada recessão e a cada aumento na taxa de juros
elas também são afetadas, como todas as empresas, embora não
almejem lucro. Para piorar a situação, em épocas de recessão
as doações das empresas "socialmente responsáveis" caem pela
metade, e, ao contrário das empresas, as entidades não mandam
ninguém embora.
Um orfanato não
coloca a metade dos órfãos na rua só porque os juros subiram.
Há oito anos organizo o Prêmio Bem Eficiente, com o apoio
de cinco generosos patrocinadores. É um dos poucos prêmios
dedicados aos que devotam 100% de suas energias e receitas
ao social: as entidades beneficentes. Elas são o contrário
das empresas, que gastam em média 0,1% de suas receitas no
social e acham que merecem prêmios por isso.
Das 380 entidades
que analisamos anualmente, de 80% a 90% têm dinheiro em caixa
para suprir despesas por no máximo uma semana. Vivem do prato
para a boca, constantemente em stress, preocupadas se sobreviverão
até o fim do mês.
Essa falta de
reservas líquidas ou de colchão de segurança financeira deixa
todos os nossos líderes sociais intranqüilos e complica o
esforço de arrecadação. Nenhum doador quer doar para cobrir
salários atrasados. Quer doar para construir um prédio novo
ou ampliar o serviço prestado.
Para tentar mudar
esse paradigma, há quatro anos decidimos premiar uma das cinqüenta
entidades vencedoras com 200.000 reais. Escolheríamos uma
eficiente mas que estivesse nesse sufoco financeiro, resolvendo
de vez seu problema.
Sugerimos às entidades
que colocassem a doação num fundo de investimento, e só a
utilizassem em última necessidade. Era um pedido que fazíamos,
sabendo que talvez não fosse cumprido.
No ano passado,
uma das duas entidades recebedoras dessa doação nos procurou
para prestar contas. Construiu uma nova sede, que batizou
de Prédio Bem Eficiente, que deve ter custado uns 600.000
reais. Perguntei como conseguiram a diferença, e para minha
surpresa me mostraram que a entidade não havia gasto um tostão
dos 200.000 da doação, que continuava toda aplicada em fundos
financeiros, conforme havíamos pedido. Fiquei mais confuso
ainda. "Aquilo foi muito mais do que uma doação, aquele dinheiro
nos deu a paz de espírito de que precisávamos", disse o diretor.
Paz de espírito
para não entrar em desespero em cada recessão, com as constantes
mudanças na política econômica. Puderam ser mais agressivos,
procurar recursos adicionais sem desespero, mostrando planos
futuros, e não despesas passadas. A arrecadação explodiu.
O que me deixa
perplexo nessa história toda, e por isso a estou relatando,
é que do ponto de vista financeiro não fizemos absolutamente
nada. O dinheiro não foi usado, e pelo jeito nunca será. Ainda
bem.
Hoje, a maioria
das empresas ditas socialmente responsáveis está cancelando
seus donativos para as entidades que já existem, preferindo
criar institutos e fundações com a marca de suas empresas,
reinventando a roda, tirando muito mais do que a tranqüilidade
e a paz de espírito de muita gente boa nesse setor e que acaba
desistindo.
Por essa razão,
sempre tenha um dinheirinho de reserva. Um dia sua empresa
também o despedirá, ou achará que seu trabalho não é mais
interessante. Prepare-se para esse dia, que fatalmente virá.
Tenha seis meses ou um ano de gastos pessoais em caixa. Eu
sei que é difícil, você terá de fazer sacrifícios, como não
comprar uma televisão ou não trocar de carro.
Mas ter um dinheiro
guardado para os anos de vacas magras não fará mal a ninguém.
Dinheiro pode não trazer felicidade, mas ter uma certa quantia
poupada pode lhe trazer muita paz de espírito nos momentos
difíceis.
Sua primeira
compra na vida nunca deveria ser um televisor financiado pelo
cartão de crédito. Sua primeira compra deveria ser sua paz
de espírito, que não custa tanto, pode crer.
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja,
Editora Abril, edição 1841, ano 37, nº 7, 18 de fevereiro
de 2004, página 22
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fonte www.kanitz.com.br |
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Repercussões |
Parabéns
pela coluna desta semana. Acho que será
muito útil a todos e um grande alerta,
principalmente num país como o Brasil.
ldluz@hotmail.com
Real e decididamente "Paz de Espírito"
é o que todos aspiramos, todos os brasileiros.
Sobretudo na velhice, que é sempre
um período de vacas magras, salvo,
é claro, algumas exceções.
pedrover@matrix.com.br
Muitas
vezes me sinto parte integrante de diversos
dos seus comentários. Este, especialmente,
mexeu muito comigo, pois tudo que tenho tentado
encontrar nos últimos anos é
a paz de espírito que perdi. Sei que
capacidade não me falta, o que tem
me faltado é uma boa oportunidade.
felises@terra.com.br
Tenho
gosto pela leitura de jornais e revistas,
e, seus artigos na revista Veja são
realmente impressionantes. Aborda temas complexos
através de uma linguagem simples porém,
de peso, possibilitando pessoas de 17 anos
como eu, que não possuem conhecimentos
técnicos, entendam os pontos em questão.
Por favor, continue agindo assim!
neilorbastos@hotmail.com
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e-mails: na
medida do possível, tentaremos responder a todos os
e-mails referentes aos artigos.
artigos@kanitz.com.br
Questões:
Como ter paz de espírito?
O que é empresa socialmente responsável?
Como guardar dinheiro?
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