Você
já morreu de inveja dos filhos do Antonio Ermírio
de Moraes e da fortuna que eles vão herdar? Você
gostaria de ter nascido um Diniz, do Pão de Açúcar
e poder exigir 100 milhões de dólares pela
sua quota parte? Então, leia este artigo e console-se.
Ser filho ou filha de empresário não é
um mar de rosas.
Quantas vezes você
já sonhou com a morte de seu chefe? (Se foi mais
do que três vezes mude de chefe, antes que aconteça
uma desgraça.) Agora, imagine este mesmo sonho na
cabeça do filho de um grande empresário, onde
o chefe é também o seu pai. Um sonho destes
termina em dois anos de análise de divã na
certa, sem muita chance de solução.
Veja este patético
bilhete do filho de um empresário americano, antes
de finalmente se suicidar.
"Pai, deixe-me brincar com empresas de minha criação.
Não me forces a tocar a sua empresa pois seria a
nossa destruição."
Não tenha muita inveja
de filhos de milionários, que a vida deles não
é nada fácil, ao contrário do que se
pensa. Basta olhar para a cara do Príncipe Charles
para ver a infelicidade estampada. A situação
de um filho com 45 anos, trabalhando na empresa do pai,
não é muito diferente.
Por isto, "De pai para
filho" é um lema cada vez mais difícil
de se manter hoje em dia. As forças que existem para
impedir a continuidade da empresa na família são
inúmeras, e poucas serão as empresas que poderão
manter esse lema e, ao mesmo tempo crescer como uma empresa
sadia.
Isto não quer dizer que a empresa familiar é
uma instituição fadada à extinção,
pelo contrário. A proliferação de fontes
de capital e financiamento tem auxiliado, como nunca, a
criação de novos empresários que deverão
ler este artigo a fim de não se desiludirem com os
filhos que os seguirão, ou não.
Na empresa, a relação
pai-filho é fundamental para a sua preservação.
As relações entre pais e filhos já
são complexas hoje em dia no contexto normal. Os
filhos de hoje são mais bem informados, possuem uma
maior gama de relações com outros adultos
e, via de regra, são mais maduros. Os pais de hoje
provêm de uma educação rígida,
de um mundo em rápida mutação e de
uma sociedade ocidental que não respeita os idosos
como as culturas orientais.
Se reduzir o conflito de gerações já
é difícil, imagine introduzir mais uma variável
nessa relação: a de subordinado-patrão.
Um pai patrão.
As forças que interagem
contra uma relação adequada entre pai e filho
são complexas. A literatura da relação
pai e filho é vastíssima, a psicologia analítica
está quase que exclusivamente baseada nela. Vamos
restringir a quatro conceitos interessantes:
1. Aspirações do pai com relação
a si mesmo.
2. Aspirações do pai com relação
ao filho.
3. Aspirações do filho com relação
a si mesmo.
4. Aspirações do pai com relação
ao próprio ser
A imagem que um pai faz de suas aspirações
é denominada seu Ego Ideal. É a imagem de
onde ele gostaria de chegar num futuro mais ou menos distante.
Considerando a força de vontade do pai, que normalmente
é elevada, na sua capacidade em montar um empreendimento,
é razoável se supor que o pai possui um Ego
Ideal bem definido e ambicioso. Ele sabe o que quer e seu
desejo de chegar lá é bem forte. Tanto é
que conseguiu.
Pouco tem sido pesquisado sobre a constituição
psíquica do empresário em geral. Defini-lo
como um agente econômico, maximizador de lucros ou
um perseguidor do vil metal é uma explicação
simples demais, da mesma forma que o são outras definições
unidimensionais.
O empresário é,
por excelência, um indivíduo que possui metas
elevadas. Ele está constantemente redefinindo o seu
ideal, colocando-o em níveis cada vez mais altos
que então tenta alcançar. (Vamos ser honestos,
se você tivesse 2 milhões de dólares:
você se aposentaria numa ilha em Angra dos Reis ou
arriscaria tudo para tentar conseguir 4 milhões de
dólares?)
O indivíduo que opta pela segunda alternativa deve
ter alguma outra motivação bastante forte
que poucos de nós entendemos. Muitos chamariam este
indivíduo de louco.
Isto explica porque tantos capitães de indústria
têm tanta dificuldade em se aposentar, para o desespero
de seus filhos com 55 anos. Isto significaria admitir derrota.
Erick Erikson, um psicólogo
renomado da Universidade de Harvard, possui um modelo de
desenvolvimento humano que ajuda a elucidar o pai-patrão.
Um dos estágios de desenvolvimento de interesse neste
caso é o que ele chama de Integridade versus Desespero.
É justamente o último estágio. Com
a conscientização de que o fim da vida está
próximo, ou o indivíduo se sente íntegro,
isto é, sente que sua vida foi boa e bem aproveitada
ou então se desespera. Desespera-se porque a esta
altura percebe que a vida que lhe resta é pouca para
fazer as grandes realizações que precisa para
se realizar.
O empresário que se
aposenta e vai viver numa casa de campo resolveu esse estágio
plenamente. Está disposto a viver o resto de seus
dias calmamente, cônscio de que chegou lá,
foi um sucesso não material mas como ser humano.
Por outro lado, um empresário que decide aos 78 anos,
não se aposentar mas sim continuar e até iniciar
um novo e vultoso empreendimento não se sente realizado
apesar da idade. Aliás, está em grande perigo,bem
como sua empresa, pois suas faculdades mentais e físicas
estão lentamente se deteriorando, a sua vivacidade
não é a mesma de outrora. Pior ainda, seus
métodos de administração, valores e
regras de bolso são antigos.
Se ele dependia destes últimos anos na direção
da empresa ou de mais um empreendimento para, finalmente,
justificar sua existência, há uma grande probabilidade
de que morra como um homem psicologicamente fracassado.
Resolver o conflito Integridade
X Desespero não é fácil. Alguns funcionários
públicos são obrigados a enfrentá-lo
por lei diante de uma aposentadoria compulsória.
Outros são "aposentados" pelo Conselho
de Administração.
Aposentadoria por idade é permitida aos 65 anos e
em muitas empresas os colegas, os interesses e a política
a tornam compulsória. Mas numa empresa familiar quem
é que vai recomendar o pai a se aposentar? O filho?
O genro? O contínuo? Nunca.
O filho já ouviu milhões de vezes da mãe,
quando o pai não comparecia a dezenas de eventos
importantes – para o filho bem entendido - que a empresa
é a vida do velho, e sabe muito bem que uma aposentadoria
significaria a morte do pai.
Pelo menos é o que dizem. E assim "papai"
continua. E o analista do filho fatura mais três anos
de análise. Pior para o filho. Pior para o pai. Ele
nunca chegará a ter que enfrentar o conflito integridade
X Desespero. Ele nunca procurará um “hobbie”,
umas boas férias, outros interesses. E assim, vai
postergando sua aposentadoria for falta do que fazer depois.
Aí, a situação na empresa fica horrível.
O pai-patrão se torna
ultra-autocrático, especialmente em relação
ao subordinado filho. Megalomania é comum.
Um construtor de São Paulo confrontado com este conflito
decidiu construir um conjunto de edifícios que despertaria
“inveja” ao Portal do Morumbi. E nesta cartada
lá se vai a fortuna e, às vezes, a empresa.
Em outra empresa, uma malharia, um filho reclama que “papai”
tem uma tremenda necessidade de sentir-se importante. Rouba
idéias do filho sem reconhecer o fato, elimina-o
das decisões da empresa, reduz o campo de atribuições
do filho, etc. O filho é percebido agora pelo pai
como uma grande ameaça, não mais como um companheiro
e aprendiz: mais um sinal de desespero.
Não há nada mais triste do que uma velhice
confusa e sofrida.
Erros são constantemente
atribuídos agora aos filhos, autoridade deixa de
ser delegada e, muitas vezes, o pai reassume funções
anteriormente partilhadas. E a data da aposentadoria é
constantemente reconsiderada e adiada. A agonia do pai irá
refletir seriamente no relacionamento inter-filhos. Onde
existe mais de um filho trabalhando na empresa, sempre aparece,
após a morte do pai, sentimento de culpa, e cada
um irá responsabilizar o outro pela infelicidade,
em vida, do pai. Mas, normalmente como o pai sempre oculta
seus sentimentos, isso dificulta a percepção
do problema.
O que o filho pode fazer?
Praticamente nada. O problema é do relacionamento
do pai consigo mesmo. Mas, podemos ficar atentos aos sinais
que indicam a resolução satisfatória
deste conflito. Alguns deles são:
1. Uma habilidade do pai-patrão de falar do passado
como sendo uma época feliz e válida.
2. Referências a si mesmo como tendo conseguido o
que queria.
3. Habilidade de falar sobre o futuro da vida limitada sem
remorsos.
A incapacidade do dono de
uma empresa familiar enfrentar a sua aposentadoria é
uma boa indicação para o profissional dar
o fora.
A ausência desses sinais é uma boa indicação
para dar o fora. Especialmente se você for um diretor
profissional ou mesmo um funcionário menos graduado,
que nada tem a ver com a família e os seus problemas.
Infelizmente, um filho de uma empresa familiar nem sempre
tem esta opção, a vida não é
fácil para eles. Provavelmente quer compartilhar
do sofrimento do pai neste conflito numa posição
bastante incômoda - a de ser parcialmente responsável
pela crise.
É sintomático de uma cultura desenvolvimentista
evitar comentários sobre a morte e a velhice. Mas
continuar calado numa empresa familiar também não
é uma posição sensata.
Aspirações
do pai com relação ao filho
A maioria dos pais deseja
que seus filhos sejam mais bem sucedidos que eles mesmos.
Desejar ao filho tudo que não se teve na infância
e na juventude é um grande motivador do pai de família.
Especialmente para a classe de pequenos empresários
advindos de imigrantes que chegaram neste país praticamente
"com uma mão na frente e outra atrás".
Desejar o melhor para o filho muitas vezes é motivo
para querer o filho fora da empresa familiar, especialmente
quando esta é pequena.
Numa pesquisa realizada entre
filhos de empresários, constatou-se que esse desejo
de melhoria era a principal razão pela qual a recusa
por parte do filho de trabalhar na empresa familiar acabava
sendo aceita com pouca resistência por parte do pai.
Afinal, a empresa familiar era pequena e o desejo para o
filho era de uma vida melhor, geralmente através
de uma profissão nobre como advocacia, medicina,
etc. Entre os entrevistados, muitos comentaram que o pai,
certamente, nem permitiria que eles trabalhassem na empresa
familiar.
O mesmo não ocorre com o filho de uma grande empresa
familiar. A recusa de trabalhar para a empresa é
vista como uma grande ameaça (especialmente para
a mãe-futura viúva,e irmãs ainda solteiras).
Sonhar em ser violinista
ou médico traz alvoroço no seio da família:
Quem irá tocar o negócio na ausência
do velho? Estatisticamente, o segundo filho de uma empresa
familiar tem mais condições de seguir os seus
próprios desígnios do que o primogênito.
Tanto é que muitos seguem outras carreiras que não
a do pai. Esta liberdade só é conquistada
porém, a custa do sacrifício do primogênito.
Portanto, se você quiser ser filho de empresário,
tente nascer em segundo ou terceiro lugar.
Ser filho de empresário, só é divertido
se você não for o primogênito.
Para aqueles que decidiam seguir a carreira de administrador
de empresas, tornava-se óbvio para o filho, e também
para os pais, que com esta carreira eles acabariam sendo
treinados para empreendimentos muito maiores que a empresa
familiar.
Mas, o que invariavelmente ocorre (e isso com todo pai e
não somente o pai empresário) é que
nossas aspirações em relação
a nossos filhos não são constantes e variam
com o tempo. Para o pai empresário, as aspirações
de que o filho assuma um dia as rédeas da empresa
familiar irão variar com o ritmo dos negócios.
E isso é muito prejudicial para uma criança
à procura de um modelo de identificação
pessoal e que encontra nas atitudes do pai um modelo vacilante
e inconstante.
Muitos empresários
questionam a idéia do filho, um dia, assumir ou não
a direção da empresa. Isso especialmente nos
momentos iniciais e difíceis da empresa e que, muitas
vezes, coincidem com os anos iniciais de formação
da criança. Ela vê os planos futuros de sua
carreira na empresa variarem com as oscilações
do negócio familiar.
É por isso que muitos filhos consideram a empresa
familiar um negócio arriscado e que deve ser evitado,
muito embora possa ter atingido, aquela altura, uma sólida
posição econômico-financeira. É
curioso observar a escolha de carreiras profissionais de
filhos de donos de empresas familiares. Muito embora pai
e filho possam estar incertos em relação à
época em que a sucessão na empresa se processará,
raramente a escolha da profissão é feita numa
área muito diversa daquela em que atua a empresa
familiar, como Medicina, Veterinária, Biologia, etc.
Normalmente, a carreira profissional
escolhida é Direito, Engenharia, Economia, etc.,
áreas que permitem uma carreira independente ao mesmo
tempo em que mantém uma porta aberta para o ingresso
na empresa familiar. Mas enquanto o pai acredita que com
essa escolha ele mata dois coelhos com uma cajadada só,
o filho, talvez sem saber, continua confuso em relação
ao futuro.
Note-se que a profissão escolhida não é
Administração de Empresas ou disciplina afim,
uma carreira que mais ou menos define como sucessor do pai
na empresa familiar, nem Medicina, que também define
a não sucessão. Ficamos numa situação
cômoda mas nebulosa que permite postergar o problema
sucessório. E quando há o casamento, quase
perfeito, entre a profissão e as necessidades da
empresa familiar, torna-se ainda mais difícil a decisão
de abandoná-la.
Ser administrador numa empresa qualquer é bem menos
interessante e remunerador do que ser administrador em sua
própria empresa.
Aspirações
do filho para consigo
O maior problema de um filho
numa empresa familiar é o seu esforço e habilidade
para alcançar uma identidade própria.
A maturação de uma identidade própria,
por várias razões, é um processo bem
mais difícil para o membro de uma empresa familiar
do que para outros indivíduos. Primeiramente, pela
própria natureza e personalidade do pai empresário.
Ele é um indivíduo
difícil de se vencer num diálogo de homem
para homem; normalmente consegue vencer toda e qualquer
discussão, o que é frustrante para o filho
e péssimo para a formação de um caráter
forte e sólido. E tentar a discussão numa
segunda rodada também trará um resultado negativo.
O pai é um especialista, cativante e insinuante e
tem vários anos bem sucedidos em convencer outras
pessoas a fazerem exatamente o que ele quer, e o pior -
provavelmente o pai está com a razão em todas
essas discussões.
Acontece que, contestar valores
atuais faz parte da formação de um indivíduo
em busca de uma identidade própria. O erro é
a nossa interpretação desse comportamento.
Ele é muito menos uma contestação do
que uma experimentação com outros valores
diferentes. Veste-se, por assim dizer, várias outras
formas de se comportar, de encarar o mundo, etc. Olha-se
no espelho e provavelmente descobre-se que o novo topete
não fica bem, procura-se então outro penteado
e, assim por diante, até encontrar, talvez, alguns
anos mais tarde, uma identidade, uma vestimenta que agrade,
e que felizmente não é tão diferente
do que todos queriam. O jovem não está contestando,
mas sim experimentando temporariamente. Somos nós,
observadores do progresso, que rotulamos esse fato, injustamente,
de "contestação", provocando uma
desnecessária alienação do jovem e,
muitas vezes, reforçando a idéia de contestação
por nossa própria atitude.
Normalmente, terminada a
fase de experimentação, vemos o jovem assumir
padrões muito próximos aos do pai; aqueles
mesmos padrões considerados pelo filho, não
muito tempo atrás, de burgueses, alienados, reacionários,
etc. Essa fase de experimentação seria muito
mais rápida não fosse a natural ameaça
que esse comportamento, tido como rebelde, traz aos pais
e parentes.
Especialmente numa empresa familiar onde a rebeldia é
encarada como extremamente perigosa aos interesses dos negócios
da família, esse comportamento é imediatamente
bloqueado e proibido pela família. Tanto isto é
verdade, que existe uma notável diferença
entre filhos primogênitos e filhos mais novos. Irmãos
mais novos tendem a ser mais "rebeldes" que os
primogênitos. Isto quer dizer que a família
sentiu-se menos ameaçada com a rebeldia do mais novo.
Permitiu-se a "excentricidade" do mais jovem mas
nunca do primogênito. Este tende a ser mais enquadrado,
mais em linha com o pensamento familiar e, geralmente, mais
frustrado.
Portanto, é muito difícil para o filho experimentar
o encontro com uma identidade própria. E quando não
pode se rebelar de forma ostensiva, o faz, muitas vezes,
de forma passiva. Coopera com relutância, faz tudo
para que não dê certo, faz questão de
ir mal nos estudos, etc., etc.
Um outro fator que dificulta
a busca de uma identidade, de acordo com a opinião
de vários entrevistados, é a relutância
do pai em auxiliar o filho nessa procura. Segundo um entrevistado,
ele se lembra do pai haver comentado uma única vez
"que o filho era valioso para a empresa". Enquanto
que uma promoção, numa empresa qualquer, seria
recebida com orgulho paternal, numa empresa familiar a promoção
dada ao filho é algo tirado do pai e é natural
que o pai tenha sentimentos ambivalentes.
Muitos filhos descobrem que uma promoção numa
empresa familiar tem que ser conquistada a "unhas e
dentes", após uma longa briga, que geralmente
o pai (ou ambos) saem perdedores, e este será o último
a dar os parabéns.
Uma promoção no trabalho é um importante
elemento na formação de uma identidade própria,
uma importante conquista na área profissional, algo
que recompensa os anos de estudo e cria um certo sentimento
de orgulho próprio. Mas geralmente o filho de uma
empresa familiar não tem essa satisfação.
E para piorar a situação,
quem vai acreditar que aquela promoção é
merecida e foi conquistada pela capacidade e não
pela paternidade? O filho de um famoso Ministro brasileiro
confessou que somente estudando fora do país pôde
sentir, pela primeira vez, que suas conquistas eram próprias.
Ninguém, nos Estados Unidos, conhecia seu pai e dessa
forma o seu sucesso não poderia ser atribuído
a favoritismo. Ser filho do dono não é fácil
numa empresa familiar. Muitos descobrem que nunca serão
sócios do empreendimento, nem tampouco subordinados,
mas sim, eternos "filhos", uma posição,
considerada por muitos, como bastante desconfortável.
Sem falarmos dos problemas semelhantes dos "genros".
Um outro fenômeno que
poderá ou não ocorrer é o sentimento
de profunda incapacidade do filho; à medida que ele
percebe a natureza do problema, sente-se incapaz de fazer
alguma coisa para solucioná-lo. Inicialmente ele
tenta superar o próprio pai, mas logo percebe como
isso é difícil. Primeiramente, porque o pai
é um elemento forte, dinâmico, esperto, conhecedor
das "manhas" do negócio, mais vivido, e
para piorar não dá permissão a qualquer
movimento do filho neste sentido. Isto cria a frustrante
imagem de "nunca serei como meu pai" ou "nunca
serás como o seu pai" - frase provavelmente
já dita a ele por inúmeras pessoas. Em segundo
lugar, o próprio pai não o treinou da melhor
forma para que pudesse ter alguma chance na disputa. Terceiro,
superar o pai, ou mesmo tentar superar o pai, é "heresia"
frontal contra a nossa cultura. Nessas condições,
que chances tem o filho? Nenhuma.
A outra alternativa é
também frustrante. Não competir, abandonar
tudo, virar padre, médico ou coisa parecida. Primeiramente,
a família nunca iria permitir.
“Será que você não pode esperar
um pouquinho?"
“Afinal, um dia tudo será seu".
Outro estratagema comumente
usado por um pai patrão, é gerar uma dependência,
através de um salário que dificilmente o filho
obteria numa empresa profissional. Qualquer grito de independência
ou contestação, terá que ser avaliado
agora contra a perda do poder monetário. Quem começou
a vida tendo uma BMW, pensa duas vezes em largar a empresa
que o proporciona.
Todos esses inúmeros problemas pesam contra a empresa
familiar e, portanto, contra 99% das empresas brasileiras.
Isso não somente afeta a continuidade da empresa
como aumenta o risco de crédito, de fornecimento
de materiais, de estabilidade de emprego. Profissionalizar
essas empresas não é a solução
pois a maioria dos empresários entende como profissionalização,
enviar os seus filhos para as escolas de Administração,
e não contratar profissionais que não sejam
membros da família.
Qual a solução
de todos estes problemas?
Primeiro, entender a fundo os componentes psicológicos
de toda esta trama. Pelo menos, para tornar a empresa familiar
um pouco mais humana e sensata, para ambos - pais e filhos.
Segundo, entender um pouco mais dos sistemas de contabilidade
e controladoria, que permitem multinacionais controlarem
suas subsidiárias no Brasil sem ter um parente do
acionista principal em cada posto importante.
São estes sistemas
de controle que permitem às multinacionais não
serem roubadas a torto e direito pelos executivos profissionais,
o grande temor da família empresarial. São
estes controles que permitem definir melhor a direção
a longo prazo da empresa.
Se as multinacionais podem administrar suas subsidiárias
a 10.000 quilômetros de distância, as famílias
brasileiras podem seguramente controlar as suas próprias
empresas a centenas de metros de distância, sem ter
de colocar cada membro da família em cargos de confiança.