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A morte da galinha de ouro

Os leitores que seguiram meu conselho em "O Fim dos Paraísos Fiscais" (3 de outubro de 2001) de trazer seus dólares de volta a 2,80 reais e investir na bolsa ganharam 40% em menos de dois meses. Não precisam me agradecer, basta doem 10% e renovem sua assinatura de Veja.

Minha previsão de hoje não é tão positiva. A bolsa de valores está morrendo, justamente agora que 16 milhões de jovens vão precisar de emprego nos próximos anos.

Foi-se o tempo em que bastava uma enxada de 30,00 reais para poder ganhar a vida. Hoje não há mais emprego sem investimento, sem "capital" inicial: alguém tem de investir em média 200 000 reais em escritórios, máquinas, mesas e computadores antes que nossos filhos possam ser contratados para começar a trabalhar.

Nossos governos acham que a bolsa de valores é para especuladores. Esquecem que ela é também um lugar onde pequenos investidores aplicam para que empresas possam ter capital e gerar empregos. Nossa bolsa deveria chamar-se bolsa de geração de empregos, porque esse é seu resultado final. Não conheço país que tenha dado certo sem ela.

Em 1997, o volume da bolsa era de 157 bilhões de dólares por ano. Hoje não passa de 44 bilhões. Nesse ritmo, ela fechará suas portas no dia 23 de agosto de 2004. Em vez de salvá-la, o governo anuncia para 2002 o aumento do imposto de ganhos de capital para 20%, calculado sem reconhecer a desvalorização da moeda. Paga-se imposto por valorização nominal e não real. Dependendo da inflação a taxação variará de 65% a 99%, podendo até ultrapassar 100% um confisco que nem Collor faria.

Quem aplicou 1 000 reais nas ações que compõem o Ibovespa em 1997 terá de pagar a partir de 2002 mais de 130% de imposto de ganhos de capital. Terá todo o seu ganho real tributado e ainda ficará devendo. Taxar em 130% uma atividade é simplesmente acabar com ela. Especuladores de curto prazo, com pouca inflação, saem ganhando. Investidores de longo prazo, os que mais sofrem com a inflação, são confiscados, uma lógica maluca.

A maioria dos investidores da classe média brasileira aposta em ações e outras aplicações de longo prazo para poder aposentar-se com dignidade. Se a bolsa encerrar suas atividades, eles terão de investir em imóveis e nesses fundos de títulos do governo e rezar para que não ocorra novo calote, nem manipulação da correção monetária, caso contrário não se aposentarão.

Não acredito que Lula aceite entrar para a história, injustamente, como o presidente que acabou com o capitalismo e o mercado de capitais brasileiro. Será uma ironia do destino ver Lula lutar pelo nosso mercado de capitais, como já faz a Força Sindical, reduzindo juros e esses impostos, para que possamos fazer o Brasil crescer sem depender dos bancos e do capital estrangeiro.

Somada a uma Lei das S/A ainda tímida, ações sem direito a voto, taxação de fundos de pensão e ganhos de capital e ausência de superávits na nossa Previdência, a bolsa irá morrer, como já ocorreu na Bolívia, no Peru e na Argentina.

Taxar com ICMS e IPI quando consumimos os ganhos de capital é justiça social, mas taxar em 100% os poucos que reinvestem esses ganhos, gerando empregos, é loucura nacional. Taxar lucros é corretíssimo, mas taxar lucros que são efetivamente reinvestidos é suicídio.

É condenar nossos filhos a trabalhar eternamente para multinacionais de governos que não destruíram suas bolsas de geração de empregos. Outros países que taxam os ganhos de capital podem dar-se a tal luxo,pois já são capitalistas. Com a morte de nossa Bolsa, nem pré-capitalistas seremos.

Por isso, recomendo aos felizardos leitores a recomprem legalmente seus dólares e invistam na bolsa de geração de empregos de Nova York. Para que americanos possam gerar empregos que nossos filhos implorarão disputar.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

Artigo Publicado na Revista Veja, Editora Abril, edição 1729, ano 34, nº 48, 5 de Dezembro de 2001, página 20.

 

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fonte www.kanitz.com.br
 
 
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" No meio da escuridão ou cegueira tributária surge uma luz com uma inteligente lição de bom senso e advertência. Para satisfazer metas de arrecadação de hoje, estamos condenando à inanição o amanhã das empresas brasileiras".
Alfredo N. Rizkallah

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