Às vésperas das
eleições para a prefeitura, a maioria dos brasileiros ainda
está na dúvida em quem votar. No mais honesto ou naquele que
fala melhor? No melhor administrador, com melhor formação
em administração, ou naquele que nem jogar SimCity - o jogo
eletrônico que simula a administração de uma cidade - sabe?
A
maioria das cartilhas da Internet que ensinam a votar dá ênfase
ao candidato, e não ao partido: "Analise seu passado", "avalie
suas propostas". Por isso nossos partidos são fracos e nossos
políticos infiéis.
Escolher
um partido requer outros critérios de escolha. No mínimo alguns
conhecimentos de teoria política, que resumidamente irei simplificar,
abordando uma única questão. Uma questão básica, que todo
cidadão precisa resolver. Uma questão para a qual, adianto,
não existe resposta feita, nem comprovação científica clara,
e por isso acaba sendo uma pergunta ideológica, de fé.
A
pergunta crucial é esta: quem, na sua opinião, decide melhor,
o Estado ou o indivíduo? Quem escolhe melhor nossos médicos,
os professores de nossos filhos, as ações a comprar com nosso
FGTS, quem aplica melhor o nosso INSS para a aposentadoria?
Se
você acha que o Estado decide melhor, então eleja um partido
com gente competente, inteligente e honesta que irá decidir
e gastar seu dinheiro por você. Pague seus impostos e não
reclame. E quando um idiota tomar o poder, algo que às vezes
acontece, espere quatro anos e tente novamente.
Se
você acha que o indivíduo decide melhor, então escolha um
partido que luta por Estados pequenos, por programas de governo
enxutos, que decidam cada vez menos, permitindo ao indivíduo
decidir cada vez mais.
Com
exceção dos anarquistas, todos os partidos políticos acreditam
que em algumas questões o Estado decide melhor. Até neoliberal
convicto acredita que Justiça e segurança ficam melhor na
mão do Estado. Na maioria dos países os partidos acabaram
convergindo para somente dois: o que acredita mais no Estado
e o que acredita mais nos indivíduos.
Somos
um país onde se acredita mais no Estado em inúmeras áreas
de atuação, como saúde, educação, previdência, bancos estatais,
petróleo e crédito imobiliário. Recentemente, o Estado decidiu
que poderíamos, excepcionalmente, comprar ações com nosso
FGTS, mas somente as da Petrobrás, e muitos compraram a R$40,00
o que poderiam ter comprado no ano passado por R$16,00.
Por
que o leitor de Veja não pode aplicar os 32% de seu salário
que são depositados no INSS todo mês para sua própria aposentadoria?
Porque quase todos os partidos políticos acreditam, nesta
questão particular, que o Estado decide melhor como aplicar
nosso dinheiro. Não somente todo este dinheiro sumiu como
o rombo anual equivale a mais 32% de nossos salários, ou seja,
total de 64%.
Um
dos grandes problemas da democracia é que as pessoas que se
candidatam a um cargo eletivo tendem a ser justamente as que
acreditam que o Estado decide melhor. Quem não acredita nisto
simplesmente não se candidata: vai fazer o quê num governo
que acha que quem deve decidir são os indivíduos?
Este
fato da sociologia política gera inexoravelmente um Estado
cada vez maior, com impostos cada vez maiores e promessas
eleitoreiras cada vez mais espetaculares.
Portanto,
simplifique a sua escolha de candidatos elegendo primeiro
o partido que mais se aproxima de suas convicções sobre como
devemos ser governados, seja fiel a elas e exija que o candidato
também o seja.
Publicado na Revista VEJA, Editora Abril, edição 1668, Ano 33, nº 39 de 27 de
setembro de 2000, página 22