A
primeira reunião do novo governo foi convocada para aumentar
os juros para 26,5%.
"Precisamos debelar
esta inflação reduzindo o consumo popular", iniciou um dos
técnicos do
assunto.
"Não entendi.
Inflação não é aumento dos preços, e
aumento de preço não reduz naturalmente o consumo?", argumentou
o ministro Muda, que fizera inúmeras campanhas publicitárias
para empresas que pararam de vender justamente porque os preços
eram maiores que os da concorrência.
"Aumentar o preço,
de fato, reduz consumo, mas aumentando os juros aceleraremos
o processo. O perigo é os sindicatos não esperarem a queda
dos preços e pedirem a indexação dos salários."
"Então vamos
conversar com os sindicalistas", disse o ministro Muda. "Vocês
entendem muito mais de sindicalismo do que de juros."
"É que eles não
falam mais conosco, acham que somos de direita. Agora só podemos
nos comunicar por sinais, sinalizando via juros e vieses indicativos.
É muito triste esta situação."
"Tudo bem, mas
quem disse que aumentar juros diminui o consumo? Na época
do Mailson eu comprei uma TV com os juros ganhos em um único
dia", lembrava-se Muda.
"A teoria mostra
que a propensão-marginal-a-consumir é MENOR quanto MAIORES
os juros. Todos vão preferir poupar a consumir, especialmente
com esses juros fantásticos."
"Mas, se esse
raciocínio for correto", argumentou Muda, "eles deixarão de
gastar 100 reais hoje, o que de fato reduz a inflação, mas
poderão gastar 126 reais no ano que vem, e isso sim vai ser
inflacionário."
"Vamos resolver
um problema por vez, senhor ministro. No ano que vem, a gente
conserta nossos erros do futuro."
Muda então contou
das propagandas que fizera afirmando que a caderneta de poupança
rendia 30,5% ao mês, na época de uma inflação de 30%. Ele
achava aquilo uma propaganda enganosa, que se deveria pelo
menos descontar a inflação e mostrar que o verdadeiro juro
era de somente 0,5%.
"Sabemos disso",
diziam os monetaristas na época. "Chamamos a isso de ilusão
monetária. O povo acha que o juro nominal é o juro real, mas
não é. Você comprou sua TV usando parte da sua poupança achando
que o juro do mês era renda. Isso ocorre até hoje."
"Então é tudo
isso que gera inflação. Políticas monetárias em que se acaba
gastando poupança. Expectativas racionais baseadas em juros
irreais e ilusões monetárias, que portanto jamais serão racionais.
Juros nominais que não são reais e sim ilusão. Emitir sinais
em vez de conversar", bravejou Muda. Foi a gota d'água!
Muda mudou a
política monetária baseando-se agora em juros reais, e não
irreais. Criou uma campanha conclamando a população a não
gastar os juros nominais acumulados que não eram nem juros
nem renda para gastar.
"Vamos ter sete
anos de vacas gordas, vamos economizar para os anos de vacas
magras. Vamos ser espertos desta vez", uma campanha com Einstein
como figurino. Reduziu o consumo na hora.
Outra campanha
mostrava que, devido ao déficit da Previdência, agora era
necessário poupar para a velhice, QUALQUER que fosse o juro.
Aliás, quanto MENOR o juro, MAIS as pessoas precisam poupar
para sua aposentadoria, o contrário da teoria. É só fazer
as contas.
Em vez de aumentar
os juros para corresponder à percepção de risco, Muda baixou
a percepção de risco fazendo o Marketing do Brasil, a um preço
infinitamente menor. Mostrou os jingles "O Brasil que dá certo"
mundo afora, mostrou nossas boas notícias, e o investimento
veio correndo. O presidente foi reeleito, e Muda virou diretor-geral
do FMI.
Muda mudou o
mundo. Revolucionou o FMI mostrando que o marketing econômico
poderia ser um poderoso instrumento estabilizador. Conteve
com campanhas pontuais várias fugas de capitais, impediu que
crises de um país contagiassem outros. Atraiu os investidores
certos, não os especuladores via juros. Fidelizou o capital
volátil. Mudou expectativas e eliminou medos infundados, como
fez na propaganda política. Cresceram e viveram felizes para
sempre.
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista
Veja, Editora Abril, edição 1805, ano 36, nº 22 de 4 de junho
de 2003