A grande maioria
das mães de adolescentes e pré-adolescentes se preocupam,
com razão, com as perspectivas de emprego dos seus filhos
e filhas.
As notícias sobre o fim do emprego, terceirização, globalização,
níveis de desemprego são alarmantes para quem pretende iniciar
uma carreira daqui há alguns poucos anos.
Quais são os fatos
concretos?
1. As 500 maiores
empresas brasileiras não acrescentaram um único emprego novo
nos últimos 10 anos. Pelo contrário, retiraram do mercado
400.000 postos de trabalho, passando a empregar somente 1.600.000
funcionários, o que representa um insignificante 2,3% dos
trabalhadores brasileiros.
2. A globalização
está dizimando não somente empresas brasileiras, mas setores
inteiros.
3. O crescimento
das importações não gera apenas um problemático déficit comercial,
mas cria empregos no exterior em detrimento do emprego interno.
Existem algumas
considerações que amenizam este quadro, sem querer dar uma
impressão de um mar de rosas. Dificuldades os jovens terão,
mas os argumentos abaixo serão úteis quando o pânico empregatício
surgir novamente.
1. O crescimento
das importações não durará para sempre neste nível, e nunca
chegará a 90% do PIB, desempregando todo mundo, como uma simples
extrapolação poderia sugerir. Provavelmente estabilizaremos
em torno de 15% as importações, como na Índia e EUA. Oitenta
e cinco porcento do PIB será feito por brasileiros para brasileiros.
2. O grande gerador
de emprego, no mundo inteiro não é a grande empresa, e sim
a pequena e média. Quem emprega 97,3% da força de trabalho
hoje em dia é a pequena e média empresa, bastante esquecidas
ultimamente nas prioridades econômicas do governo.
O governo FHC
tem priorizado as grandes empresas, seja nas grandes privatizações,
na busca de grandes investidores internacionais e nas grandes
reformas. A pequena e média empresa mal figuram no discurso
presidencial, uma importante razão desse aumento do desemprego.
Mais dia menos dia, alguém irá alertar FHC que não é simplesmente
abaixando os juros que irá fomentar os empregos que precisamos.
3. Mas o principal
argumento para acalmar mães aflitas é que o povo brasileiro
ainda não consome seu primeiro e segundo televisor, como ocorre
no primeiro mundo, nem seu quinto par de sapatos ou sua viagem
a Fortaleza. Enquanto estes desejos existirem, nossos filhos
terão oportunidades incríveis para produzir os itens necessários
para satisfazê-los.
O mercado brasileiro
é incrível em termos de potencial, e nosso problema hoje é
exclusivamente de produção, não de mercado nem econômico.
Preocupadas deveriam
estar as mães alemãs, suíças e francesas, porque nesses países
eles já têm 5 pares de sapatos , três televisores em cada
casa, um mercado saturado. Nenhum europeu vai querer dois
televisores em cada quarto, nem 10 pares de sapato, pois não
são a Imelda Marcos. Na Europa não há mais emprego porque
o consumismo europeu está chegando à saturação.
4. Se seu filho
e sua filha souberem adquirir competência e conhecimentos
práticos que sejam demandados por este novo mercado emergente,
não terão dificuldades.
Quem não estiver
minimamente preocupado com seu futuro profissional, ou freqüentando
uma escola mais preocupada em ensinar o que era importante
no passado do que o que será importante no futuro, vai ficar
sem o que fazer.
Não querendo deixar
a impressão de que tudo será fácil, nem de que estamos no
caminho certo, quem decifrar o seguinte enigma não terá de
se preocupar: no futuro faltarão empregos, mas não faltará
trabalho.
Publicado na Revista
Veja edição 1539 de 25 de março de 1998