A
melhor proposta para reduzir juros, de todos os candidatos
que estão aí, é a de Feliciano Brasileiro,
um candidato virtual. Feliciano promete baixar os
juros
para 5% ao ano sem queda-de-braço com os bancos, sem alongar
a dívida para doze anos, sem aumentar o câmbio para 3,2 reais
o dólar e sem decretar moratória da dívida interna.
Como a inflação corrói nossas aplicações, todo investidor
quer receber um juro acima da inflação. Por isso, essa taxa
básica de 18,5% não são juros, apesar de economistas jurarem
o contrário. "São a soma de juros mais inflação, só que ninguém
fica sabendo quanto é juro e quanto é inflação." Ambos vêm
somados, e por isso Feliciano chama essa taxa de "PerasComMaçãs".
"No Brasil ninguém sabe ao certo qual a taxa de juros que
o governo irá pagar. Você compraria títulos sem saber os juros
que irá receber?" Claro que não, afirma Feliciano, o que somente
aumenta a taxa de risco do aplicador.
Para saber a taxa de juros, o aplicador precisa contratar
um economista de renome para fazer uma estimativa da inflação,
para então deduzi-la da taxa "PerasComMaçãs". "Quando seu
economista contratado estimar a inflação entre 5% e 7%, qual
das duas estimativas você escolhe?", pergunta Feliciano. Essa
incerteza de imediato aumenta os juros em 2 pontos porcentuais.
E, se você é um daqueles que não acreditam nas estimativas
de nossos melhores economistas, provavelmente você embutirá
3 ou até 4 pontos porcentuais para compensar o risco de erro
de estimativa. "Por que pagar por essa incerteza desnecessária?"
A proposta de Feliciano é emitir títulos públicos que estabeleçam
os juros reais antecipadamente, de forma clara, sem previsões
nem surpresas, como era a caderneta de poupança antigamente.
Se o juro de mercado for de 6%, este será o juro que os títulos
irão pagar. Ninguém terá de contratar economistas para estimar
a inflação futura e saber o juro que irá receber.
Pequenos investidores que não têm economistas a sua disposição
precisam acreditar nas "metas inflacionárias" do governo,
que nem sempre são cumpridas. A política de metas inflacionárias
não diminui as incertezas, diz Feliciano, pelo contrário,
as aumenta. "O governo tem de garantir os juros, não a meta
de inflação", afirma o candidato virtual.
A
constatação mais surpreendente de Feliciano é que o governo
não acabou com a correção e a indexação, o que é considerado
o grande feito deste governo. "A indexação continua", diz
Feliciano, "só que agora corrige os juros embutindo a inflação,
antes se corrigia somente o valor da aplicação. Indexaram
os juros, e deixam a inflação corroer sua aplicação, o que
não faz o menor sentido."
Segundo Feliciano a "correção monetária" não foi eliminada,
simplesmente trocaram a base da inclusão da inflação, e para
pior. Indexar os juros aumenta-os em níveis estratosféricos,
enquanto indexar a dívida, como era feito antigamente, mantém
o juro baixo e garante que o investidor receba exatamente
o que aplicou.
A
segunda medida de Feliciano será eliminar o imposto de renda
de 20% que incide sobre os juros pagos. "Só isso reduziria
os juros em mais de 20% e o maior beneficiado seria o próprio
governo federal, que é quem mais deve por aí."
Feliciano
está introduzindo o conceito do "Municipal Bond" americano,
que já existe em outros países. "Municipal Bonds" são títulos
emitidos por cidades americanas, isentos de imposto de renda
e que, portanto, pagam juros bem menores. Prefeitos americanos
que não são arrecadadores do imposto de renda não precisam
implorar benesses ao governo federal e depender politicamente,
como ocorre no Brasil. Seria a salvação de prefeituras endividadas.
Eliminado o risco de incerteza da inflação e de não saber
o juro real a ser auferido, colocando-se a inflação no lugar
certo e sem imposto, os juros de fato poderão cair para 5%,
como propõe Feliciano. Só falta um candidato de carne e osso
para transformar essa idéia virtual em realidade.
Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista
Veja, edição 1760, ano 35, nº 28, 17 de julho de 2002.