Militantes
antiglobalização carregam celulares da Nokia,
usam o Internet Explorer para navegar na rede mundial de computadores
e copiam seus protestos numa impressora HP. Até eles
são a favor do intercâmbio comercial entre os
povos, embora não admitam. O que eles abominam são
as movimentações financeiras entre países,
uma conseqüência inevitável do comércio.
Hoje, americanos e europeus podem investir os reais que recebem de suas exportações em dívidas do governo brasileiro ou na bolsa, em vez de remetê-los imediatamente de volta ao seu país. Isso reduz os nossos juros porque aumenta a demanda por títulos do governo, juros que seriam ainda maiores se não existisse esse influxo internacional.
O lado ruim é que qualquer notícia ou frase infeliz de um governante ou análise equivocada de um jornalista estrangeiro pode gerar certo pânico e uma movimentação financeira no sentido inverso. É como se o leitor colocasse sua mão numa toca à procura de ouro num país desconhecido. Qualquer raspão na pele, sua mão sai da toca a 100 quilômetros por hora.
O problema é o curto prazo. Ter de agüentar a insegurança inicial desses investidores estrangeiros novatos, que vivem com o dedo no gatilho. Com o tempo, aprenderão as nossas idiossincrasias, descobrirão quem são nossos bons jornalistas e economistas, e as fugas de capital no futuro serão bem mais brandas.
Infelizmente, a maioria de nossos intelectuais é contra movimentações financeiras; eles querem criar uma sociedade estável a todo custo, com juros altos, com controle de câmbio, CPMF internacional, quarentenas financeiras do influxo de dinheiro e intervenções governamentais, sempre ditados por eles. Esquecem que sempre existirão pessoas que se assustam com o novo, por isso intervenções só pioram a situação.
Volatilidade faz parte da vida, a solução correta é aprender a conviver com ela, e não impedi-la. O mundo não é regido por leis econômicas, mas por leis biológicas, típicas de grandes populações de seres vivos. Hoje, até o noticiário econômico demonstra que percebeu isso quando usa expressões como contágio, ataques especulativos, mecanismos de defesa, vocabulário que vem da biologia, e não da economia.
Palocci foi criticado por muitos economistas brasileiros por ser médico, mas justamente por isso ele está muito mais adequado ao cargo do que se pensa. Um dos "mecanismos de defesa" que os nossos economistas governamentais nunca construíram no passado, porque não faz parte do receituário heterodoxo, foi a criação de reservas financeiras adequadas à volatilidade. Reservas financeiras compram tempo e tranqüilidade. Tempo para pensar numa melhor solução para a crise.
No Brasil, nossas poucas reservas sempre terminaram muito antes de a crise passar, obrigando-nos a nos endividar com todo o mundo, especialmente com o FMI.
TODAS as crises mundiais foram nefastas para o Brasil porque criar reservas nunca foi considerado uma política econômica importante, e sim um desperdício de dinheiro. Tanto é que em 2002 o governo Lula herdou reservas internacionais ínfimas, de somente 17 bilhões de dólares, o equivalente a dez dias da nossa produção interna. A China vive uma fase de segurança e prosperidade porque tem mais de 600 bilhões de dólares em reservas.
A visão do administrador para gerar estabilidade econômica contra a volatilidade da globalização é a de promover políticas públicas que estimulem cada empresa, cada governo estadual e municipal, cada família a criar reservas financeiras suficientes para enfrentar as crises do futuro. A decisão de Antonio Palocci e Henrique Meirelles de aumentar nossas reservas para 60 bilhões de dólares, em vez de investir no social, trará muito mais tranqüilidade social do que seus críticos imaginam.
Portanto, se você é contra a globalização, proteja sua família da volatilidade humana criando um fundo de reserva financeira. Se você vive perigosamente, contraindo dívidas com juros flutuantes ou nunca se aprimorando no trabalho, aumente a quantia que você "reserva" todo mês.
Até o termo "reservar" nos parece estranho. Não acredite nas previsões seguras publicadas por aí. Acredite somente que teremos crises de tempos em tempos e que, se você tiver zero de reservas, a crise o afetará 100%. Quanto mais reservas você tiver, menos a crise o afetará.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Editora Abril, Revista Veja, edição 1906, ano 38, nº 21, 25 de maio de 2005, página 22