Boa
parte da história da humanidade transcorreu
em uma época na qual a maioria da população vivia
em pequenas vilas e cidades com no máximo 10.000 habitantes.
Isso significa que havia, em média, 200 pessoas em sua faixa
etária, que você conhecia por nome e sobrenome.
Nem todas eram
simpáticas, brilhantes e alegres como você, mas, se quisesse
ter amigos, você teria de aprender logo cedo a aceitar as
idiossincrasias e diferenças de opinião. Muitos dos filósofos
da época escreviam sobre tolerância, uma virtude necessária
para os tempos.
Hoje, a situação
é diametralmente oposta. A maioria da população brasileira
vive em grandes centros urbanos, fenômeno com menos de quarenta
anos de existência. Ainda não aprendemos a conviver com essa
nova situação. Por exemplo, nem dá para pensar em conhecer
as 100 000 pessoas em sua faixa etária de sua metrópole. De
quarenta anos para cá, começamos a fazer algo que nossos antepassados
não podiam: selecionar nossos amigos.
Podemos, agora,
criar um seleto grupo de amigos, gente-como-a-gente. Pessoas
com os mesmos interesses, com as mesmas manias, que pensam
politicamente do mesmo jeito, que têm os mesmos gostos e opiniões.
Se seu vizinho
é um chato ou tem opiniões contrárias, você simplesmente o
ignora, e se desloca até o outro lado da cidade para encontrar
um amigo. Gente chata nunca mais. Virtudes como tolerância,
respeito, curiosidade intelectual não são sequer mais discutidas,
muito menos veneradas. É cada um por si e seus amigos.
Com a Internet,
a situação piorou, e muito. Agora existem sites que permitem
que descubramos gente-como-a-gente do outro lado do mundo,
através de "comunidades virtuais" , e-grupos, e-amigos, enfim.
A Amazon Books,
por exemplo, avisa-me de outros clientes que compraram exatamente
os mesmos livros que eu comprei. Gente do mundo inteiro que
tem os mesmos interesses, um pequeno grupo de gente-como-eu.
Isso, no entanto,
está longe de ser uma comunidade, no sentido antigo da palavra.
Se não tomarmos cuidado viraremos um bando de narcisistas
olhando no espelho.
Jamais iremos
criar uma sociedade de união universal como pregam os social-internautas.
Somente aumentaremos a intolerância, a falta de compreensão,
compaixão e humildade local. Aumentaremos também a arrogância,
com a auto-alimentação de grupos que terminarão se achando
donos da verdade.
Não vou sugerir
uma volta ao passado, nem negar que é um prazer conhecer gente-como-a-gente
do mundo inteiro, e prevejo que provavelmente iremos continuar
nesse caminho.
Mas teremos de
fazer um pequeno esforço para conhecer novamente nossos vizinhos,
apesar de chatos, apesar das opiniões diferentes, dos gostos
musicais irritantes e assim por diante. Se você parar uma
vez na vida e conversar com seu vizinho, poderá descobrir
que no fundo ele até que tem coisas interessantes e diferentes
a dizer. Você poderá descobrir que existe uma virtude em ser
tolerante, compreensível e aberto a novas idéias.
Se cada um se
fincar na sua trincheira, criando batalhões de amigos que
pensam igualzinho, iremos caminhar numa rota perigosa para
o futuro.
Meu site www.voluntarios.com.br
dá preferência proposital às entidades próximas ao endereço
em que você mora. Talvez não haja uma de que você goste em
seu bairro, mas esse é justamente o espírito da filantropia
e do voluntariado: não se faz o que se "gosta", mas o que
é necessário ser feito.
Portanto, se você
tem um vizinho chato, cumprimente-o de forma diferente da
próxima vez que o encontrar. Dê um sorriso encantador . Convide-o
a ir a sua casa ou apartamento. Vamos começar a aprender a
conviver com gente-que-não-é-tão-parecida-com-a-gente. O mundo
ficará bem melhor.
Publicado
na Revista Veja, Editora Abril, edição 1690, ano 34, no 9 de
7 de março de 2001, página 22.