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Os grandes fundos de pensão

Em novembro de 2001, o presidente eleito Luiz
Inácio Lula da Silva e o economista Guido Mantega se reuniram com alguns administradores financeiros e executivos para discutir o futuro. Algumas de nossas preocupações eram as declarações de Lula nas
eleições de 1994 e 1998, o plebiscito da dívida
externa, o "Fora o FMI", as bandeiras vermelhas, e
que, numa iminente vitória, o risco Brasil, o dólar e os juros iriam às nuvens, gerando ainda mais desemprego. O que de fato aconteceu.

Apesar do discurso mais ameno, havia entre os bancos estrangeiros e brasileiros a lembrança da moratória de 1987. O ministro da Fazenda da época se esquecera de uma das leis mais elementares de administração financeira: banqueiros não são os donos do dinheiro, são meros intermediários.

Por isso, nunca aceitaram soluções como a de Mário Henrique Simonsen que limitava o pagamento dos juros a 30% do valor de nossas exportações.

Pergunte a Mrs. Jones, a velhinha de Nova York que aplica 50.000 dólares no Citibank, se ela está disposta a receber juros proporcionais a 30% das exportações brasileiras. Propostas ingênuas e administrativamente inviáveis.

Por isso, moratórias devem ser sempre feitas em surdina, para não assustar as velhinhas. Mas, contrariando o bom senso, o Brasil decretou moratória em praça pública, todas as velhinhas do mundo ficaram sabendo e começaram a sacar seu dinheiro aplicado nos bancos que haviam acreditado no Brasil. Bancos americanos até criaram anúncios na época que diziam: "Não temos um centavo investido em países como o Brasil", para acalmar os correntistas preocupados. Mas, antes de publicarem esses anúncios, venderam correndo nossos títulos com enorme deságio, para não perder a clientela, deságio que perdura até hoje e nos custa caro.

Em 1987, trabalhávamos no governo, adotando uma política de não confrontar os bancos como fizeram, mas buscando recursos nos fundos de pensão dos funcionários de empresas como GM e IBM, que tinham subsidiárias no Brasil.

Nossa pequena equipe oferecia um título inovador que garantia um juro real predeterminado de 3,5% ao ano e protegia da inflação americana, algo que queriam mas não tinham quem lhes oferecesse. Fundos como o da IBM e mais de 1.000 outros identificados pela Towers Perrin, a maior consultoria de fundos de pensão dos Estados Unidos, adoraram a idéia, mas a moratória acabou com todo o nosso esforço. Nunca mais trabalho para o governo.

Nossa idéia acabou sendo adotada não pelo Brasil, mas, para minha grande tristeza, pelo governo americano, que percebeu seu potencial. O "nosso" título é vendido em mais de 300 sites nos Estados Unidos. Vide os TIPS - Inflation Protected Securities.

Dinheiro barato e de longo prazo está nos fundos de pensão e não precisamos de banqueiros para nos intermediar com a IBM, talvez com a Mrs. Jones. Nossa equipe tinha trânsito livre nessas empresas, devido aos enormes interesses que elas possuíam no Brasil.

Propusemos levar Lula e sua equipe a dois fundos de pensão americanos: o Teachers Union, de Nova York, e o Fundo de Pensão dos Funcionários Públicos da Califórnia. Os dois são multibilionários e administrados por pessoas que "tinham um pouco de PT". Poderia estar redondamente enganado, mas achava que uma conversa de sindicalista com sindicalista seria melhor do que com banqueiros.

Uma viagem dessas deixaria Wall Street furiosa, porque mostraria que, finalmente, o Brasil descobrira o caminho das pedras sem usar banqueiros como intermediários. Por outro lado, deixaria óbvio que Lula não iria romper com o FMI, Washington e o capital internacional, depois que descobrisse que hoje os donos do dinheiro são os sindicatos e os fundos dos trabalhadores das grandes empresas. Lula nem era candidato nem imaginava a necessidade de cuidar do futuro período de transição, e a viagem não saiu. Viajar, agora, nem pensar! Sindicatos são mais exigentes e chatos que o FMI, porque o dinheiro lá é suado, e não arrecadado. Talvez daqui a alguns anos, quando o governo mostrar resultados. Lula terá portas abertas, todo sindicalista do mundo quer saber como Lula se tornou presidente. Se negociar bem, trará de volta bilhões a juros baratos.

Mas, até lá, alguém precisa mostrar ao futuro governo, e especialmente à ala mais radical do PT, que os bancos internacionais e o FMI não são mais os donos do capital e do dinheiro. Eles pertencem aos grandes fundos de pensão, há mais de vinte anos.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

Artigo Publicado na Revista Veja, edição 1778, ano 35, nº 46, 20 de novembro de 2002.

 

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fonte www.kanitz.com.br
 
   

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