Um
avião da Embraer precisa de 1,5 milhão de peças para ser construído.
Cem aviões necessitam de 150 milhões de peças, componentes
e matérias-primas, inclusive energia, todos essenciais para
o funcionamento e a segurança do avião. Se faltar uma única
peça, nenhum avião poderá ser entregue.
Somando-se
todos os produtos, peças e matérias-primas produzidos no Brasil,
chegamos a um número não menor que 10.000 trilhões de itens
por ano. Só os tubos de pasta de dentes são 1 bilhão.
O
que ninguém fica sabendo é que todo dia uma pequena parte
desse mundaréu de peças, digamos 0,002%, está faltando. Ou
seja, hoje 200 milhões de peças e matérias-primas estão em
falta em algum lugar do Brasil, só que ninguém é pego de surpresa.
Cada
fabricante tem executivos e funcionários que começam a antever
a escassez e aumentam os preços, algo que o setor de energia
não fez. Esse reajuste sinaliza duas importantes informações
para a sociedade:
1.
"Pessoal, está começando a faltar esta peça. Vamos tentar
usá-la menos, ou somente quando for indispensável."
Aqueles
que podem substituir a peça por outra, ou que não precisam
desesperadamente dela, a consomem menos. Assim, os que precisam
desesperadamente da peça continuarão a recebê-la. Tudo feito
de forma espontânea e voluntária, ao contrário do racionamento
e da ameaça de corte de energia impostos pela intervenção
do Estado. Hoje, se um amigo seu numa UTI quiser mais energia,
ele terá de fazer um requerimento ao governo, que talvez abra
uma exceção. Não se permite doar energia nem ele poderá compensar
a energia de sua casa vazia, algo que o sistema de preços
permitiria.
O
segundo aviso que um aumento de preços dá é mais importante
ainda:
2.
"Pessoal, a margem de lucro da peça número 1 432 aumentou.Vamos
expandir rapidamente a produção comprando máquinas e contratando
mais trabalhadores."
O
lucro adicional gerado pelo aumento do preço canaliza os recursos
financeiros necessários justamente àqueles mais capacitados
para ampliar a produção no momento. Tudo o que falta é corrigido
sem os economistas nem os governos ficarem sabendo. Imaginem
o Pedro Parente cuidando de 199 milhões de câmaras de emergência.
Se
as empresas de geração de energia fossem privadas, seus executivos
já teriam aumentado os preços em 10% em 1998, reduzindo o
consumo, e estariam obtendo recursos e investindo bilhões
de reais em energia, apesar do déficit do governo federal
e da preocupação do FMI.
Os
que pagam mais por um produto sem o qual não podem ficar acabam
permitindo àqueles que abriram mão dele tê-lo novamente com
o reinvestimento do lucro adicional que terão de pagar, algo
que não ocorre num racionamento. Os que recebem salário mínimo
não são prejudicados, porque governos democráticos e que não
têm déficit previdenciário reajustam o salário mínimo para
compensar o aumento da tarifa, para que todos continuem a
receber o mínimo necessário de energia.
O
governo poderia ter elevado os preços da energia, mas empresas
estatais são geridas por outros critérios, como não aumentar
a inflação num ano em que se busca a reeleição, isto, sim,
um egoísmo que favorece poucos e prejudica a todos. Os que
pedem a volta da capacidade de planejamento governamental
do setor esquecem que houve um "planejamento", um tanto maquiavélico,
e com outros propósitos.
Congelamentos
desorganizam a economia. Setores que estão crescendo 20%,
como o de peças para geradores e celulares, precisam reduzir
em vez de aumentar sua produção. Setores que estão em decadência
e caindo 20% não precisam fazer nada. O mesmo não acontece
com 199 milhões de produtos que neste momento estão em falta,
sem ninguém, presidente, ministro ou intelectual que odeia
as imperfeições de mercado, ficar sabendo.
Stephen Kanitz
Artigo
publicado na Revista Veja, Editora Abril, edição 1708, ano 34, nº 27, 11 de
julho de 2001, página 24.