A
palavra "especulador" tem sua origem na raiz
indo-germânica "Spec", que significa olhar. São
dessa raiz as palavras especialista, espelho, expectativa,
respeito, espetáculo e, finalmente, especulador: aquele que
olha à frente, vê o futuro, aquele que enxerga aquilo que
outros não vêem.
Toda nação precisa de bons especuladores.
Especuladores
que enxergam o futuro ganham dinheiro, os que erram perdem
e são rapidamente eliminados. O problema não é o especulador
que especula com o próprio dinheiro. O grande problema do
Brasil são os que especulam com o dinheiro dos outros, com
o dinheiro do povo.
George Soros,
considerado o maior especulador da década, percebeu que o
governo inglês estava manipulando a libra, mantendo-a na paridade
com o marco alemão. Ao prever o óbvio, que a Inglaterra não
era a Alemanha, Soros prestou um serviço ao povo da Inglaterra,
pondo fim àquela especulação governamental, e ganhou fortunas
por sua coragem.
Em 2000, o governo
brasileiro lançou um global bond de 1 bilhão de dólares pagável
em quarenta anos. Ofereceu uma taxa de 13,5% ao ano, sem ter
a menor idéia de qual será a inflação americana em 2010. Muito
menos em 2040. O juro (real) a ser pago é, portanto, desconhecido,
o que fere os princípios de aprovação orçamentária pelo Congresso
e fere também a Constituição.
Provavelmente,
os governantes especularam que a inflação americana e o juro
real seriam os mesmos por quarenta anos. Especularam mal,
a inflação americana caiu, e quem vai pagar por essa diferença
por mais 38 anos? Você, caro leitor.
Não satisfeitos,
lançaram títulos da dívida interna em dólar, apesar de nossa
moeda ser o real. Provavelmente especularam que o dólar voltaria
a 2,80 reais. Especularam mal. O dólar está indo para 3,80.
E quem vai pagar essa conta? Você e seus filhos, por muitos
e muitos anos.
Nossos intelectuais
saem acusando "especuladores", alegando que fomos "vítimas
de um ataque especulativo do mercado" e esquecendo-se de alertar
nossos jornalistas de que quem especulou em primeiro lugar
foi justamente o governo.
Mario Henrique
Simonsen assinou na década de 70 dívidas externas com juros
que flutuavam APÓS a assinatura do contrato. Provavelmente
especulou que os juros se manteriam mais ou menos iguais pela
duração do contrato. Especulou mal. A taxa subiu para 17%,
o que detonou a crise da dívida externa, que nos custa caro
até hoje. Quando lhe perguntei por que assinara contratos
com juros em aberto, respondeu que ninguém poderia ter previsto
aquela alta dos juros. De fato, e por isso os governos nunca
poderiam ter permissão para assinar contratos chamados pelo
nosso direito de "aleatórios". Os governantes precisam ser
proibidos de especular com o dinheiro dos outros.
Finalmente, o
atual governo "aumentou" a taxa de juros sem ter clara a idéia
de qual será a inflação de setembro, outubro e dezembro de
2003. Os que criticaram o governo pelo aumento foram injustos
e incorretos, porque ninguém sabe se o juro (real) subiu ou
caiu; só saberemos quando a inflação do ano for conhecida.
Aliás, ninguém sabe qual o juro atual do Banco Central. Por
isso a especulação continua.
O futuro sempre
trará surpresas (e prejuízos) ao gestor público, mas deliberadamente
especular o futuro é brincar com fogo. Contratos públicos
não podem ter cláusulas deliberadamente especulativas. Os
governos deveriam reduzir riscos, não aumentá-los.
A sociedade deveria
se preocupar com esse novo fenômeno, o da especulação pública,
e de preferência antes que se crie um Banco Central independente.
O problema para o Ministério Público é que essas operações
são juridicamente perfeitas, dentro da lei, e normalmente
o gestor não se beneficia, nem de forma escusa. São operações
bem-intencionadas, mas que causam dezenas de bilhões de dólares
de prejuízo e sofrimento humano. O Brasil perde muito mais
dinheiro com essas especulações premeditadas, que aumentam
as dívidas interna e externa, do que por corrupção não detectada.
Como impedir especuladores públicos, daqui para a frente,
de inviabilizar ainda mais nosso futuro?
Stephen Kanitz
é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado
na Revista Veja, edição 1793, ano 36, nº 10, 12 de março
de 2003, página 18.