No
passado, para garantir o sucesso de um filho ou de uma filha,
bastava que eles tirassem um diploma de curso superior. Uma
vez formados, seriam automaticamente chamados de "doutor"
e teriam um salário de classe média para o resto da vida.
De uns anos para cá, essa fórmula não funciona mais. Quem
quiser garantir o futuro dos filhos, além do curso superior,
terá de lhes arrumar um capital inicial. Esse capital deverá
ser suficiente para o investimento que gerará um emprego para
seu filho.
Todo emprego requer investimentos prévios, algo
óbvio mas esquecido por nossos políticos e governantes.
Criar um emprego não é somente oferecer um salário e colocar
o indivíduo para trabalhar. Muito antes de contratar um porteiro
de prédio, é necessário construir uma guarita para alojá-lo,
além de erguer o próprio prédio, que pode custar 5 milhões
de reais.
Um
emprego novo na indústria siderúrgica custa 1,4 milhão de
reais. No varejo, um único emprego exige o dispêndio de algo
em torno de 30 000 reais: o custo do espaço na loja, do balcão
e do estoque de mercadorias.
Americanos ganham oito vezes mais que brasileiros não porque
trabalham oito vezes mais, mas porque investem muito mais
em estoque, máquinas e equipamentos, aumentando brutalmente
a produtividade de seus filhos. Não há missão mais bela no
mundo que investir no próprio filho, para que ele contribua
para a sociedade de forma produtiva.
Portanto, prepare-se, com um bom pai, para investir uma quantia
considerável por filho, dependendo do ramo e do salário almejados.
Quem pretende ter cinco filhos, que faça as contas.
Se você for um desses filhos, lembre seu pai que ele tem uma
responsabilidade social para com você, a de lhe dar um capital
inicial. Várias famílias vêm fazendo isso, comprando uma pequena
franquia para seus filhos poderem se integrar.
Alguns
dirão chocados: a que ponto chegamos, ter de comprar o próprio
emprego! Mas no fundo sempre foi assim. Todos nós precisamos
de um capital inicial para começar a trabalhar, seja na China,
seja no Brasil. O MST há muito tempo vem dizendo isso, e luta
por um capital inicial em terras, sementes e tratores para
cada um dos seus afiliados. A era em que bastava uma enxada
de 30 reais terminou.
Antigamente, todo filho herdava as terras da família, da tribo
ou do pai. As terras passavam de pai para filho por gerações
e gerações. Seu pai não precisa dar-lhe terras como antigamente,
somente o equivalente em capital.
Se ele pensava em trocar de carro ou viajar para assistir
à Copa, sugira que ele mude de idéia e invista em seu emprego.
Filho vem sempre em primeiro lugar.
Se não forem os pais a investir no próprio filho, quem será?
Quem comprará as máquinas, os equipamentos, o escritório,
os computadores para que eles possam começar a trabalhar?
Seu filho poderia tentar um empréstimo no banco, mas os juros
atuais para empresas são inviáveis: a classe média prefere
investir em títulos públicos, a se arriscar emprestando para
quem está se formando neste ano. Seu filho poderia tentar
captar dinheiro na bolsa, mas ela está morrendo.
Ninguém quer investir em seu filho e pagar 75% de imposto
sobre ganhos de capital. Ele poderia pedir um emprego para
o governo, se decidisse ser policial ou professor, mas há
muito não se investe nem nessas áreas.
Sobra uma última possibilidade: pedir emprego a um investidor
estrangeiro ou uma multinacional, mas estes estão pensando
duas vezes antes de empregar alguém, dada a enorme carga tributária
que incide sobre as grandes empresas no Brasil.
Portanto,
se ninguém mais está disposto a investir em seu filho em troca
de juros e dividendos, esse alguém terá de ser você. Pelo
menos você terá um filho livre das garras de capitalistas
e banqueiros, livre da escravidão dos juros e dividendos.
Sei que estou propondo o impossível para muitos. Sei que alguém
deveria ter avisado tudo isso bem antes. Muito do que já foi
gasto quando seus filhos eram crianças pode agora fazer uma
enorme diferença. Mas, se você não poupar para gerar um emprego
para seu próprio filho, ninguém mais fará isso por você.
Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista
Veja, edição 1754, ano 35, nº 22, 5 de junho de 2002, página 20.