Imagine-se
técnico da seleção da economia brasileira. O Brasil está perdendo
o jogo da
globalização por 4 a zero. Você se reúne com
seus assistentes para analisar as opções.
A primeira opção
é mandar todo o time para o
ataque. Isso significa incentivar a indústria brasileira
a adotar programas de
qualidade e produtividade, apoiar as exportações, investir
em tecnologia e aumentar a competitividade. É o que nossos
governos têm feito desde 1950, sem muito sucesso.
Outra opção seria criar uma enorme confusão no meio-de-campo,
provocar a expulsão de adversários como a Alca e o FMI e anular
a partida, já que as regras foram inventadas por eles. Essas
são basicamente as únicas opções discutidas pela maioria dos
especialistas e partidos políticos.
Existe ainda uma terceira opção, pouco analisada, que parte
da percepção de que temos perdido a maioria dos jogos econômicos
porque ficamos o tempo todo tentando entender ou então mudar
as regras. Quando finalmente aprendemos os truques e os macetes,
as regras já mudaram, e os que querem mudá-las nem sabem como.
A verdade é que nunca vamos ganhar jogos com regras escritas
por outros. Jogos econômicos são ganhos muito antes de o time
entrar em campo, nos meses de treinamento intensivo, na organização
e administração do time. O Brasil sempre entra em campo anos
depois de o jogo ter começado.
Precisamos nos preparar para o próximo jogo internacional.
Precisamos nos preparar para os jogos e as regras que estarão
por vir, e até criar nossos jogos com nossas regras.
Tudo
isso pode parecer muito óbvio, mas nunca foi feito. Estamos
sempre atolados e discutindo os problemas econômicos do passado,
sem tempo para discutir as tendências do futuro. Perdemos
anos corrigindo o passado, como fizemos na Constituição de
1988, e não discutindo as possibilidades do futuro. Pior,
nossos políticos e nossa imprensa só ouvem aqueles que explicam
o presente, e não aqueles que se preocupam com o futuro. Por
definição, o futuro não é notícia, porque ainda não aconteceu.
"Qual
será o próximo jogo econômico internacional?" é portanto a
pergunta cuja resposta vale ouro. Infelizmente, não tenho
espaço nem competência para me estender convincentemente nesse
assunto. Por isso, vou dar um exemplo dos jogos possíveis,
um exemplo didático, não uma proposta concreta.
Um dos jogos que imagino é o turismo da terceira idade de
média renda. O mundo está envelhecendo e, com os progressos
da ciência, a população do Primeiro Mundo estará vivendo cada
vez mais. Lugares como Miami, Costa Brava e Lisboa ficarão
pequenos para acolher os milhões de velhinhos e velhinhas
aposentados dos Estados Unidos e da Europa, que fogem dos
rigores de seu inverno.
Se estivermos preparados, eles poderão escolher cidades mais
quentes e mais baratas, como Salvador, Fortaleza, Natal e
Maceió, cidades com a tradicional hospitalidade brasileira.
Um milhão de velhinhos com aposentadoria anual média de 20.000
dólares para gastar nos trariam 20 bilhões de "exportações"
por ano. Dois milhões de velhinhos resolveriam para sempre
nossos problemas cambiais.
Mas, para que o Brasil participasse desse jogo, precisaríamos
nos preparar desde já. Em vez de construir hotéis de luxo,
teríamos de erguer milhares de flat services. Em vez dos cassinos
que muitos querem criar, teríamos de construir dezenas de
campos de golfe, se o MST permitir. Em vez de boates, precisaríamos
de bingos, quadras de bocha e piscinas térmicas, além de resolver
nossos problemas de segurança.
Mais importante seria a construção de centros ortopédicos
e geriátricos de qualidade internacional, o que nos traria
ainda mais divisas. E aqui, caro leitor, vem o ponto crucial.
Esses investimentos levam tempo para ser feitos. E, uma vez
construído, um hospital cardiológico ou ortopédico leva no
mínimo dez anos para ganhar reputação internacional. Ou seja,
já estamos atrasados e podemos perder também esse barco, porque
nunca pensamos nos jogos do futuro, somente nos erros do passado.
Stephen
Kanitz é administrador(www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 1799, ano 36, nº 16 de
23 de abril de 2003, página 24