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Dólares na Suíça, Filhos no Brasil
Existe uma enorme contradição na frase acima.
Ganhar dinheiro no Brasil e manter parte dele
investido fora parece ser uma atitude inteligente. Mas feito
por dezenas de milhares de brasileiros, priva a nação
dos recursos já disponíveis para o nosso crescimento.
O total de depósitos de brasileiros no exterior
segundo pessoas que operam nesta área gira entre
45 e 140 bilhões de dólares. A estimativa mais freqüente é de 95 bilhões. Nunca saberemos o valor verdadeiro, mas, qualquer que seja, suspeita-se que esse valor tenha aumentado em 20 bilhões nos últimos seis meses. O que, no fundo, desencadeou a recente crise. É dinheiro suficiente para gerar de 1 a 6 milhões de empregos, reduzindo, além do desemprego, a violência urbana e a criminalidade.
Por alguma razão, evita-se discutir esse assunto em público, mas acho que é preciso abordá-lo neste momento. Primeiramente, alguns fatos: o grosso desse dinheiro não foi depositado por bilionários nem por empresários com caixa dois, mas sim por pessoas de classe média que receberam salários e honorários honestamente e que, por uma razão ou outra, entraram em pânico. Dá para entender por que as pessoas depositam seu dinheiro em países onde a regra do jogo não muda. Provavelmente, abriram essas contas para proteger suas famílias de uma hiperinflação que quase ocorreu, ou após um seqüestro de cruzados que de fato aconteceu. Portanto, antes de julgá-los com falso moralismo, é importante concordar que os tempos não foram fáceis.
Mas existe outra questão que esses poucos brasileiros precisam entender:
parte da crise reside justamente no costume e na rapidez com que se transfere dinheiro para fora, ao primeiro sinal de problema. O Brasil tem investido no exterior quase tanto quanto as multinacionais têm investido no Brasil, um contra-senso monumental. Poupança para o crescimento o Brasil já tem, o problema é que ela está no lugar errado.
Se você é um desses, mais dia menos dia você terá de resolver a seguinte questão: ou coloca seus filhos também na Suíça, ou então aplica no país em que eles irão viver e trabalhar, investindo na geração de seus empregos. Foi assim que os alemães reconstruíram a Alemanha e os japoneses, o Japão, depois da II Grande Guerra.
Quem investe em CDBs, fundos de renda fixa, cadernetas de poupança e especialmente ações brasileiras está indiretamente ajudando a gerar os empregos necessários para os próprios filhos. Além do mais, quem acha que seu dinheiro está seguro numa pequena ilha do Caribe, deveria primeiro visitá-la. Noventa e cinco bilhões de dólares é muito dinheiro para investir numa ilha. Quem garante que seu dinheiro não está reinvestido na Rússia, no Japão ou em Hong Kong? Os 3% de juros ao ano que se recebe não compensam esse risco.
Com o câmbio livre e unificado, a função do doleiro caminhará um dia para a extinção, como ocorreu na Europa e nos Estados Unidos, e daqui a dez anos você provavelmente não terá como trazer seu dinheiro de volta, nem ilegalmente. Ter de gastar o dinheiro comendo lagosta caribenha poderá matá-lo do coração. Um dia as leis financeiras serão mundiais, conseqüência inexorável da globalização. Aí não haverá porto seguro no mundo, vide o que aconteceu com Pinochet.
Está na hora de perdoar os pacotes do passado e começar a reconstruir este país. Está na hora de trazer pelo menos uma parte neste ano, e o resto, devagarinho. Os preços dos imóveis estão ridiculamente baixos; as ações, nem se fala. Os juros cairão e o dólar também. O risco Brasil só serve para os estrangeiros. Para quem vive aqui, ele não existe.
Vamos ter de fazer uma campanha corpo a corpo para convencer os brasileiros a investir de novo no país. Mas se, apesar de tudo, seu pai, seu tio, seu melhor amigo ou você mesmo ainda acreditam que aplicar dinheiro lá fora é mais seguro, pergunte ao seu gerente se não dá para depositar também seu filho ou sua filha. Afinal, seu verdadeiro investimento são eles.
Publicado na Revista Veja, edição 1592, ano 32, nº 14, de 7 de abril de 1999, página 21
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
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fonte www.kanitz.com.br |
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