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A Origem do Desemprego

Há quatro anos, criei um site na Internet, o voluntarios.com.br, com o objetivo de ajudar pessoas
a ser voluntárias em ONGs. O site foi um enorme sucesso, a ponto de hoje muitas entidades recusarem voluntários por excesso de procura, o que é uma boa
e uma má notícia.

A má notícia é que nem para trabalhar de graça hoje em dia há vaga neste país. E entre trabalhar de graça e receber o salário mínimo não existe muita diferença.

Como é possível ter milhares de voluntários e trabalhadores querendo trabalhar de graça e ao mesmo tempo termos necessidades materiais e milhares de problemas sociais precisando serem resolvidos? O que falta neste país é o meio-de-campo, o gerente, o organizador.

A origem do desemprego está na equivocada visão economicista, que acredita que o desenvolvimento depende exclusivamente da estabilidade econômica, algo que se persegue há vinte anos. De um ambiente econômico propício, o crescimento emergiria naturalmente.

Infelizmente, já se foi o tempo de Adam Smith, John Maynard Keynes e Karl Marx, que acreditavam que um pouco de ganância e capital seriam suficientes para gerar empresas e empregos. Já se foi o tempo em que "agentes econômicos", com um mínimo de "espírito empreendedor", abriam empresas bem-sucedidas.

Hoje em dia, para montar uma empresa e ter sucesso, são necessários sólidos conhecimentos práticos e teóricos de administração de empresas. Oitenta por cento das empresas brasileiras quebram nos primeiros cinco anos, por cometer um dos 100 erros banais citados nos livros de administração.

Só que o Brasil formou nestes últimos vinte anos menos de 250.000 administradores de empresas. O Conselho Federal de Administração tem menos de 90.000 inscritos.

Aí está a principal razão para o nosso desemprego, a desorganização de nossa economia e a estagnação econômica. Com 4.650.000 empresas, nem sequer temos um administrador por empresa.

Pela falta crônica de administradores formados, temos médicos que administram laboratórios de análises e engenheiros mecânicos que administram carteiras de ações. Perdemos assim excelentes médicos e engenheiros mecânicos formados com dinheiro público e ganhamos administradores sem formação, que acabam aprendendo administração de empresas à moda antiga: errando.

Os Estados Unidos tomaram outro caminho. De 1960 para cá formaram nada menos de 8 milhões de administradores de empresas. É a profissão mais freqüente, com 19% do total de 50 milhões dos americanos formados. É também a que dá o tom, a filosofia , o modus operandi de toda a economia americana. É o segredo bem escondido da economia americana.

De 1,5 milhões de formados pelas nossas universidades federais e estaduais, somente 4,5% são de administradores de empresas. Muitos governos foram contra esses cursos, coisa da direita a ser custeada pela iniciativa privada e não pelo Estado. Os próprios empresários achavam esses cursos desnecessários, já que suas empresas seriam geridas pelos filhos, treinados pela família, e não por administradores profissionais. Raras são as faculdades de administração no Brasil com nome de grandes empresários, como ocorre nos Estados Unidos.

Em pós-graduação a situação piora ainda mais. A Harvard Business School forma por ano mais MBAs que o Brasil inteiro. Os Estados Unidos têm 2.400.000 MBAs, 10% deles trabalhando no governo. O Brasil possui no máximo 5.000 mestres em administração, e a impressão que se tem é que nenhum deles trabalha no governo.

O Ministro da Fazenda acredita que o país crescerá na hora que ele achar oportuno. Os "desenvolvimentistas", do outro lado, acham que sete economistas estrategicamente colocados farão o país crescer na intensidade e direção que eles determinarem. Ledo engano. A mão invisível de Adam Smith não funciona mais no mundo moderno. Toda nação requer a mão firme e visível de centenas de milhares de pessoas treinadas e preparadas para criar empregos e organizações. Até para gerir voluntários que trabalhem de graça.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)

Editora Abril, Revista Veja, edição 1616, ano 32, nº 38, 22 de setembro de 1999, página 19

 

 

 

 

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fonte www.kanitz.com.br
 
 
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