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Democracia
Brasileira
República
de banana, uma ova. Se você tem um amigo, vizinho ou chefe
americano, que tal dar uma cutucada de leve, sem ofender,
e oferecer-lhe um pouco de know how eleitoral, made
in Brazil?
Por
não terem aprimorado o processo eleitoral nos últimos 200
anos, como fizeram nossos legisladores e nosso Tribunal Eleitoral,
os americanos terão um presidente com sabor de ilegitimidade
- o pior que pode acontecer com o líder de um país e, especialmente,
de uma democracia.
Se
as eleições americanas tivessem seguido regras brasileiras,
nada disso teria acontecido. Nosso processo eleitoral é superior
ao americano em pelo menos cinco aspectos:
1. Segundo Turno: os democratas alegam que Gore
é a "vontade da maioria do povo", apesar de ter obtido somente
48% dos votos. No Brasil, Gore e Bush iriam para o segundo
turno. Além disso, Ralph Nader e Buchanan não poderiam ter
sido excluídos do debate público do primeiro turno, como aconteceu.
Em
um segundo turno, então sem Ralph Nader, Gore provavelmente
teria obtido 52% contra 48% de Bush, já que Nader é na realidade
um dissidente democrata. Agora sim, a maioria do povo.
2. Voto obrigatório: nem Gore nem Bush obtiveram
48% da vontade do povo, como dizem. Ambos conseguiram somente
24%, uma vez que metade dos americanos simplesmente não votou.
Essa eleição dos Estados Unidos me leva a ficar a favor da
obrigatoriedade do voto, para que não haja o risco das acusações
de ilegitimidade que irão marcar o próximo governo americano.
Votar em todas as eleições, mesmo que em branco, significa
renovar seu contrato social com a democracia do Brasil, algo
que não acontece naquele país.
3. Maioria popular: nosso presidente não é eleito
por "maioria estadual ponderada pelo número de habitantes
do Estado". O colégio eleitoral poderia fazer sentido quando
o problema era achar um "representante" para treze Estados
independentes que haviam decidido se juntar tempos atrás.
Em um mundo globalizado, porém, o presidente da República
representa a nação como um todo, não um grupo de Estados.
4. Confirmação do voto: depois de digitado o
número do candidato, nossas urnas eletrônicas perguntam: "é
esse o nome e a foto de seu candidato?" Isso é auditoria no
ato. Nos Estados Unidos, milhares de americanos não sabem
com certeza em quem votaram. Tecnicamente, nós votamos quando
digitamos o número do candidato e, ao apertarmos a tecla verde,
estamos simplesmente confirmando nosso voto, já dado anteriormente.
5. Erros graves de arredondamento: esse erro aparece
quando se tenta encaixar a população americana nas somente
538 vagas do colégio eleitoral. Imaginem 100 milhões de habitantes
divididos em dois Estados e um colégio eleitoral com 100 vagas.
O Estado "Nova Flórida" tem 49 444 444 moradores, e
a "Velha York" tem 50 555 556. Como não é possível cortar
a cabeça de nenhum delegado de colégio eleitoral, "Nova Flórida"
manda 49 delegados, e não 49,44, e "Velha York" terá 51 delegados,
em vez de 50,56. Nesse caso, 444 444 votos foram simplesmente
transferidos para outro Estado. A situação se complica quando
o número de estados aumenta para cinqüenta e então os erros
ficam ainda mais graves. Ninguém comenta esse assunto, mas
ser eleito por "erros de arredondamento" é algo muito sério.
No Brasil, cada voto vale um voto e não cometemos esse tipo
de erro, inadmissível no mundo moderno.
Nosso
sistema eleitoral só perde em marketing. Li diversos comentaristas
estrangeiros dizendo que, apesar de tudo, os americanos deram
um show de democracia. Discordo. Nosso sistema eleitoral evoluiu
com o passar dos anos. O deles parou no tempo.
Publicado
na Revista Veja edição 1677 ano 33 no 48
de 29 de novembro de 2000, página 21
Página 2
Página 3
Página 4
 
fonte www.kanitz.com.br |
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| Repercussões |
| Excelente
o ponto de vista de Stephen Kanitz, pela
pertinência e pelos argumentos apresentados.
Seria recomendável que o embaixador dos
Estados Unidos traduzisse o artigo e o
encaminhasse a seu governo, para que os
americanos aprendessem com os brasileiros
o que vem a ser uma eleição legítima (Ponto
de vista, 29 de novembro).
Sidney Eduardo Cândido
de Freitas
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e-mails: na
medida do possível, tentaremos responder a todos os
e-mails referentes aos artigos.
artigos@kanitz.com.br
Questões:
Como é nosso sistema eleitoral?
Como é a eleição americana?
Know how brasileiro.
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