Cresce
o número de pessoas influentes que questionam a democracia
argumentando que no fundo ela não funciona. Isso é muito assustador.
Recentemente, em uma importante revista de sociologia, encontramos
frases como esta: "As instituições democráticas não merecem
nenhuma confiança, pois são fatídicas ou corrompidas".
Intelectuais
sempre questionaram a democracia pela facilidade com que o
povo é manipulado pela mídia e pelo marketing eleitoral. Chamam-na
de "democracia burguesa" e portanto ilegítima. A direita,
como sempre pobre nas suas argumentações, responde que a democracia
é de fato falha, mas continua o melhor sistema que existe.
Existe um erro
nessas afirmações: o Brasil não é uma democracia no sentido
original da palavra, e sim uma República. A República Federativa
do Brasil.
Numa democracia,
em seu conceito antigo, todos os cidadãos decidiam todas as
questões de Estado, 100%. Numa República, a decisão coletiva
foi reduzida a menos de 1%, resumida no único ato de eleger
um representante que votará todo o resto em nosso nome. Numa
democracia você decide tudo, numa República você só vota a
cada quatro anos. Seu representante decide tudo em seu nome.
Nem tivemos o direito de aprovar, por plebiscito, a Constituição
de 1988.
Deputados e senadores
que elegemos nunca nos consultam sobre coisa alguma. Eles
nem sabem a quem representam, nem ao menos têm os nossos e-mails.
Sob esse aspecto, nem uma República de fato somos. Democracias
funcionam nas tribos indígenas, ou quando o Estado é enxuto,
como era na Grécia. Hoje, são tantas as decisões que o Estado
precisa tomar que ficaríamos todos presos de terça a quinta-feira
em Brasília, decidindo coisas mil. Nem nossos deputados dão
conta de votar tanta coisa. Aceitam o voto da liderança.
Em vez de simplificar
o Estado e delegar decisões, substituíram o sistema democrático
pelo sistema republicano. Tomaram lentamente o poder das nossas
mãos, e continuam a chamar esse sistema de "democracia" republicana
só para parecer politicamente correto.
Boa parte dos
problemas de corrupção, como gastos públicos descontrolados,
dívidas externa e interna, juros altos, advém do fato de sermos
uma República, não do fato de sermos uma democracia. Nós não
decidimos mais nada, não escolhemos mais nossos médicos, nem
os professores de nossos filhos, nem nossos xerifes, nem nossos
gestores de previdência, como antigamente.
Numa República,
os políticos simplesmente celebram contratos em nosso nome
que duram dez, vinte, trinta anos. Período que vai muito além
de seus mandatos constitucionais. Banqueiros internacionais
adoram argumentar que países e Estados nunca quebram, que
nossos filhos terão de pagar pelas nossas dívidas e erros.
Tese inteligente para legitimar o pagamento de dívidas que
extrapolam os mandatos dos eleitos. Mas será que um contrato
de trinta anos é legítimo, se o mandato constitucional de
quem o assinou era de somente quatro anos? A Lei de Responsabilidade
Fiscal foi feita para coibir os abusos de governos anteriores.Sem
dúvida foi um avanço, mas os governos atuais continuam devedores
de governos anteriores.
Por isso, temos
a eterna alternância de governos gastadores e governos que
nada podem fazer. Muitos prefeitos pouco fazem a não ser administrar
as dívidas de prefeitos anteriores. Esse problema advém do
fato de sermos uma República, e não uma democracia. Se todos
nós pudéssemos votar democraticamente jamais contrairíamos
dívidas colossais para nossos filhos pagarem.
Se um governo
anterior lhe prometeu uma aposentadoria integral, verifique
se esse governante tinha um mandato de cinqüenta anos para
lhe fazer tal promessa. Ou se ele observou "critérios que
preservem o equilíbrio financeiro e atuarial" para não comprometer
as finanças dos próximos governos como reza o artigo 201 da
Constituição.
Foi por aí que
começaram nossos problemas com a dívida externa, a dívida
interna, estatização, precatórios e previdência. Portanto,
não fale mal da democracia, um dia ainda poderemos adotá-la
no Brasil.
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista
Veja, Editora Abril, edição 1811, ano 36, nº 28 de 16 de julho
de 2003, página 20