Nenhum
ditado popular explica tão bem os
problemas do Brasil e do mundo como "Em terra de
cego quem tem um olho é rei". Ele mostra por que existe tanta
gente incompetente dirigindo nossas empresas e nossas instituições.
Mostra também por
que é tão fácil chegar ao topo da pirâmide social sem muita
visão ou competência. Basta ter um mínimo de conhecimento
para sair pontificando soluções.
Todo mundo palpita
em economia e futebol como se fosse Ph.D. no assunto. Se o
técnico Luiz Felipe Scolari tivesse ouvido os palpiteiros,
jamais seríamos pentacampeões mundiais de futebol. Por isso
temos tantos intelectuais para lá de arrogantes, que se acham
predestinados a dirigir nossa vida com muita teoria e pouca
informação.
Existe um corolário
desse ditado que me preocupa por suas conseqüências. "Em terra
de cego, quem tem um olho é rei, e quem tem dois olhos é muito
malvisto." Indivíduos inteligentes e capazes são encarados
como uma enorme ameaça e precisam ser rapidamente eliminados
pelos que estão no poder.
Por essa razão,
pessoas com mérito e competência dificilmente são promovidas
no Brasil. Promovidos são os bajuladores e puxa-sacos. Quando
aparece alguém com dois olhos, os reizinhos tratam de eliminá-lo,
quanto antes melhor.
Já cansei de ver
gente competente que, de um momento para o outro, deixou de
ser ouvida pela diretoria. Já vi muito jornalista que, de
repente, caiu em desgraça. Já vi muito jovem comentar algo
brilhante na aula e ser duramente criticado pelo professor,
sem saber o motivo. Todos cometeram o erro fatal de mostrar
que tinham dois olhos. Por favor, não deixe que isso aconteça
com você.
Se você é dos
milhares de brasileiros que possuem dois olhos, tome cuidado.
Em terra de cego, você corre perigo. Nunca mostre a seu chefe,
professor ou colega de trabalho os olhos que tem. Lamento
não poder dar nenhum bom conselho, eu sou dos que têm um olho
só.
A maioria dos
dois-olhos que conheço já desistiu de lutar e optou pelo anonimato.
Quando eles têm uma idéia brilhante, colocam a solução na
mesa de seus chefes e deixam que a idéia seja descaradamente
roubada. Eles se fingem de mortos, pois sabem que, se agirem
de modo diferente, poderão tornar-se vítimas. Mas há saídas
melhores.
Se seu chefe
tem um olho só, mude de emprego e procure companhias que valorizem
o talento, que tenham critérios de avaliação claros e baseados
em meritocracia. São poucas, mas elas existem e precisam ser
prestigiadas.
Ou, então, procure
um chefe que tenha dois olhos e grude nele. Ele é o único
que irá entendê-lo. Ajude-o a formar uma grande equipe. Se
ele mudar de empresa, mude com ele. Seja diferente, procure
os melhores chefes para trabalhar, não as melhores companhias.
Normalmente, as grandes empresas já são dominadas por reizinhos
de um olho só.
Por isso, considere
criar um negócio com outros como você. Vocês terão sucesso
garantido, pois vão concorrer com milhares de executivos e
empresários de um olho só. Nosso erro como nação é justamente
não identificar aqueles que enxergam com dois olhos, para
poder segui-los pelos caminhos que trilham. Eles deveriam
ser valorizados, e não perseguidos, como o são. O Brasil precisa
desesperadamente de gente que pense de forma clara e coerente,
gente que observe com os próprios olhos aquilo que está a
sua volta, em vez de ler em livros que nem foram escritos
neste país.
Se você for um
desses, tenha mais coragem e lute. Junte-se a eles para combater
essa mediocridade mundial que está por aí. Vocês não se encontram
sozinhos. Nosso povo tem dois olhos, sim, e é muito mais esperto
do que se imagina. Ele está é sendo enganado há tempos, enganado
por gente com um olho só.
Foi-se o tempo
de uma elite pensante comandar a massa ignara. Hoje, a maioria
do povo tem acesso à internet e a home pages com mais informação
do que essa intelligentsia tinha quando fez seu doutorado.
Se informação é poder, ela não é mais restrita a um pequeno
grupo de bem formados. Nosso povo só precisa acreditar mais
em si mesmo e perceber que cegos são os outros, aqueles com
um olho só.
Stephen Kanitz
é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado
na Revista Veja, edição 1796, ano 36, nº 13, 2 de abril de
2003, página 20.