Maio,
mês das noivas, é uma excelente
oportunidade para falar de casamentos. Antigamente, eram cerimônias
simples, um singelo casal no altar,
um coral, música clássica de fundo, uma bela igreja iluminada
à luz de velas, tudo muito romântico.
Infelizmente este
romantismo foi lentamente sendo destruído, pelo menos nos
casamentos mais grã-finos, com a introdução das equipes de
filmagem. Oito profissionais, entre assistentes e iluminadores,
ficam bem na frente da platéia, e ninguém vê mais nada da
cerimônia. Para impedir que conversemos, de vez em quando
dirigem uma luz de 12 000 lumens de intensidade diretamente
nos nossos olhos, de tal sorte que nossa retina precisa de
doze minutos para voltar ao normal.
O intenso foco
de luz distorce a beleza natural da Igreja, acaba de vez com
a penumbra do mistério e do sagrado. Mal vestidas, mal-humoradas,
totalmente ausentes da cerimônia, muitas equipes nos fazem
até sentir que estamos todos lá para atrapalhar seu trabalho.
Por que destruir
a beleza de um casamento simplesmente para poder registrá-lo,
é uma questão filosófica intrigante. Será uma forma de controlar
os convidados?
- Quem convidou
o Araújo? Ele não estava na minha lista.
- Aquele não é o Pereira ? Nem mandou presente de casamento,
bandido.
- Olha o Frederico limpando o nariz com a camisa.
A fita do casamento
será vista no máximo duas vezes na vida por dez familiares.
Em compensação, 300 convidados terão somente a visão das costas
da equipe de filmagem. A fita talvez seja vista novamente
no vigésimo aniversário de casamento, isso se ele durar até
lá. Caso contrário o maldito filme irá para o lixo no dia
seguinte ao desquite.
Com todo o respeito
ao Sindicato dos Filmadores de Casamentos, vou propor que
se considere realizar casamentos sem filmagens, em que o momento
é vivido pelo momento, não pelo seu registro para o futuro.
Ou no máximo um filmador bem vestido, postado no fundo da
igreja com as lentes de aproximação apropriadas.
Minha esposa e
eu casamos na Igreja Anglicana, uma religião que é um misto
de catolicismo e protestantismo. Dizem que nossa origem adveio
da vontade de Henrique VIII de se casar novamente, mas ela
começou muito antes. Filho de imigrantes ingleses, herdei
um nome e uma religião incomuns.
O Bispo que celebrou
nosso casamento impôs uma proibição que na época achei estranha:
Nada de fotógrafos nem de gente andando para lá e para cá
no altar, tropeçando nos fios. "Podem fotografar a chegada
e a saída, mas durante a cerimônia não quero distrações".
O casamento é
um momento de consagração de duas pessoas, de promessas que
deverão ser lembradas e guardadas todo dia e para sempre,
não arquivadas numa fita magnética na última gaveta do armário
menos acessível.
O altar não é
o lugar para ficar posando para fotógrafos, mas para refletir
no que cada um está prometendo ao outro. A lembrança desse
momento mágico deverá ficar firmemente registrada, mas em
nossa mente e coração.
Nossos convidados
que assistiram à cerimônia a acharam muito diferente, sem
saber exatamente por quê. Até hoje comentam como ela foi singela,
bonita e espiritual. Estávamos todos concentrados no presente
pelo presente, não estragando tudo em um registro para o futuro.
Por alguma razão
queremos ser proprietários de nossos melhores momentos, para
poderemos ingenuamente "guardar", e "mostrar" a todos que
não compareceram ou não foram convidados. Agradeço hoje a
imposição do nosso Bispo, que celebrou uma cerimônia pelo
que ela representava, sem que se tomasse posse do evento para
sempre, a não ser pela nossa memória, pelas nossas recordações.
Publicado na Revista Veja edição 1699 ano 34 no
18 de 9 de maio de 2001, página 22