De vez em quando
um amigo que mal me cumprimenta, ou um colega de trabalho
que nunca me ajudou, me pede que seja seu avalista. Provavelmente,
ele raciocina que perguntar não ofende, só depende da cara-de-pau
de cada um. Por que os bancos insistem em obter um aval de
um amigo do cliente? No fundo, o que os bancos querem é reduzir
o risco da operação de crédito, arrolando também os bens pessoais
do avalista como garantia.
Mas que interesse
tem o avalista em colocar seus bens em risco sem nada receber
em troca? O avalista entra gratuitamente nesse contrato como
um voluntário, um altruísta, sem receber uma remuneração pelo
serviço que presta ao banco. O avalista só entra com obrigações
e não tem nenhum benefício, só chateação. O banco ficará obviamente
feliz com o empréstimo que você viabilizou.
Uma técnica que
eu uso nessas ocasiões, e que aprendi com um verdadeiro amigo,
é ficar indignado com os juros exorbitantes cobrados pelo
banco e oferecer o mesmo empréstimo, sem cobrar juros.
Seu amigo ou
parente vai pular de alegria, e você coloca uma única e singela
imposição: que o gerente ou o presidente do banco avalize
a operação. Não é um pedido exorbitante, e nenhum gerente
de banco poderá recusar, porque é exatamente o mesmo pedido
que eles estão fazendo. Seria hipocrisia recusar.
Ninguém nunca
voltou com meu contrato assinado, não sei por quê. Mas existe
um efeito socialmente muito negativo nessa prática do aval,
para o qual infelizmente sociólogos e antropólogos nunca atentaram.
Ao pedir um aval de um parente ou amigo, o sistema financeiro
usa para seu próprio conforto creditício os laços familiares
e de amizade longamente costurados pela sociedade brasileira.
Que tio pode
recusar um aval a um sobrinho? Que irmão pode recusar dar
um aval a outro irmão necessitado? É uma saia-justa complicada.
Se você negar o pedido, deixará o parente magoado e a família
ressentida. Ninguém obviamente avalia corretamente os riscos
que você está correndo, só o banco.
Os laços de amizade
e confiança que o próprio banco nunca sedimentou com seus
clientes são substituídos pelos laços de amizade e confiança
que seus familiares e amigos criaram com você. Aliás, se não
tem o dinheiro para cobrir o aval, você nunca deveria tê-lo
dado. Caso contrário o banco poderá vender seus bens oferecidos
em garantia. Dar um aval ou emprestar o mesmo montante é financeiramente
a mesma coisa, porque um aval significa dar o dinheiro ao
banco se seu amigo ou parente virar caloteiro.
Já vi mais de
vinte famílias ser desestruturadas pelo simples fato de um
parente não ter pago um empréstimo e o avalista ter sido processado,
prejudicando duplamente a família. Há pessoas hoje pobres
e destituídas que cometeram o pequeno erro de dar um único
aval. Muitos eram diretores e empregados de empresas, obrigados
a dar um aval a um banco que financiava a empresa, senão perderiam
o emprego.
Nenhum país dará
certo se não puder criar um clima de confiança mútua entre
seus cidadãos. Nossa inflação e as constantes mudanças das
regras e dos planos econômicos dilapidaram, e muito, nossos
laços de confiança. Colocaram-se várias vezes empregados contra
patrões, fornecedores versus clientes, inquilinos versus senhorios,
alunos versus professores, por causa de planos econômicos
mal estruturados, que aumentaram a desconfiança entre nós,
por nenhuma culpa das partes.
Para piorar ainda
mais, o novo Código Civil exige que a esposa assine também
o aval, criando discórdia entre marido e mulher, e nem toda
esposa tem como recusar. Mais sensatas que os homens, elas
jamais aceitariam dar um aval a um amigo do marido.
O novo Código
Civil, em vez de aumentar os laços de confiança da sociedade,
aumentou os pontos de atrito entre marido e mulher. O correto
seria restringir o uso do aval, e não tornar a esposa co-solidária
da operação financeira que em nada a beneficia. Mulheres,
portanto, prestem muita atenção. Lembrem-se de que, caso o
amigo do seu marido se torne inadimplente, você perderá seus
bens e os de seus filhos. E você, que pretende ser avalista,
lembre-se de que poderá perder seu amigo, seus bens e também
sua esposa. Dito isso, alguém poderia me dar um aval?
Stephen Kanitz
é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril,
edição 1853, ano 37, nº 19, 12 de maio de 2004, página
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