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A Aposentadoria Sumiu

A maioria dos leitores da VEJA vem contribuindo religiosamente para a sua aposentadoria, ao longo dos últimos cinco a trinta anos, dependendo da idade. Normalmente, são 10% descontado em folha, e as empresas contribuem mais 22%. Ao todo, são 32% do seu salário, que você poderia poupar para a sua velhice.

Só que no Brasil quem cuida deste dinheiro é o Estado, e por isso, é bom verificar, de tempos em tempos, o seu saldo. Se você entrar no site da Previdência e digitar o número de sua carteira de trabalho, descobrirá que o seu saldo é zero. Seu dinheiro sumiu. Como irão sumir suas contribuições para o resto da sua vida profissional. Este foi um dos segredos mais bem guardados destes últimos 20 anos por ministros, técnicos e a pela própria imprensa.

Meu primeiro artigo em VEJA, "Velhice Melhor", de 14 de Maio 1980, alertava: "Quem pretende aposentar-se lá pelo ano 2000 não conte demais com o INSS, faça suas economias, sua pensão corre perigo". Pelo menos avisei com a devida antecedência.

O governo estima o rombo na Previdência na casa dos trilhões de reais no decorrer dos próximos 30 anos. No ano 2030, os pagamentos para aposentadoria poderão chegar, na pior das hipóteses, a 17% do PIB, dinheiro que deveria ir para investimentos e geração de emprego.

Se seu suado dinheiro sumiu, como você vai se aposentar? Quem será a alma caridosa que pagará sua pensão? Papai Noel?

Quem já esta aposentado, está recebendo de quem? De você, pelo método de repartição social, que traduzido significa que as novas gerações pagam as aposentadorias para as velhas gerações. Mas será que as novas gerações concordam?

Como ficam os direitos adquiridos sobre nosso dinheiro se ele sumiu ? A nova geração não entende porque, mesmo com o dinheiro sumindo mês a mês há mais de 20 anos, ninguém se preocupou ou tomou providências. Porque não lutaram pelo direito de cada um cuidar da sua própria aposentadoria? A esquerda acreditou no socialismo da Previdência. A direita, no capitalismo de Estado. Ambas agora querem que a nova geração arque com as conseqüências, e esta não tem a menor culpa pelos erros do passado.

Os que pretendem aposentar-se estão diante de uma realidade dramática. Afinal, eles pagaram rigorosamente por 35 anos, como mandava a lei, e o dinheiro sumiu. Poderão os jovens deixar os mais necessitados sem amparo e comida ?

Claro que não. Mas tirar a poupança futura de toda uma geração não é menos dramático só porque se trata do futuro. Somente este ano foram 80 bilhões de reais de poupança que deixaram de ir para investimentos que teriam criado 2 milhões de empregos para a nova geração. Um pacto terá de ser acordado. A nova geração certamente aceitará um Pacto Intergerações, mas a velha geração terá de mudar o tom, sentar à mesa, e reduzir a conta a ser paga.

Ao impedir a redução das aposentadorias de 110% para 100% do último salário, minha geração se arrisca perder os dedos, em vez dos anéis. Querer postergar o problema quanto possível e discutir medidas transitórias suaves e indolores é simplesmente condenar os jovens à miséria.

Com este comportamento, a velha geração está caminhando para uma ruptura institucional com relação à nova geração, que quer ter o direito de escolher quem vai cuidar de sua poupança, e não que ver seus salários usados para as aposentadorias dos outros. Eles não pretendem cometer o mesmo erro de seus pais. Conhecendo a coragem das mulheres brasileiras, mães que são desta nova geração, não tenho a menor dúvida que elas ficarão ao lado de seus filhos, e não dos seus maridos, que não se preocuparam com o destino de suas contribuições. Vamos torcer para que não tenhamos 140 milhões de mulheres brasileiras e jovens de um lado, contra um punhado de homens do outro.

Artigo veiculado na Revista VEJA, na edição n.º 1620, do dia 20 de outubro de 1999

 

 

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fonte www.kanitz.com.br
 
   

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Nossa aposentadoria sumiu mesmo, e faz muito tempo, pois foi utilizada para outros fins. E, o pior, não vejo como o governo irá resolver isso, com tanta gente mamando nos recursos (Ponto de vista, 20 de outubro).
Otilio Figueira
Bezerra Maringá, PR

 

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Como me aposentar?
Qual o rombo da Previdência?