A
inflação destrói todo tipo de referencial
de caro e barato, o que por si a realimenta. Uma das razões
para se eliminar a inflação é justamente
resgatar o referencial de preços ao sistema de produção.
Nunca se pensou o contrário: Resgatar o referencial
de preços como uma pré-condição
para a eliminação da inflação.
Ou seja, devolver
ao povo brasileiro a noção de preços,
do que realmente é caro e barato. Apesar de se noticiar
que o pão subiu 28% no mês, nenhum leitor é
capaz de dizer se de fato o preço do pão é
mais caro ou mais barato do que um ano atrás, uma situação
que por si só gera a inflação.
Devolver à
economia uma proporcionalidade entre os preços, entre
o pão e o leite, e que reflita a relativa escassez
dos produtos entre si. Os congelamentos de preços fizeram
justamente o contrário, distorceram o mecanismo de
preços como efetivos sinalizadores da escassez dos
produtos.
O plano que resolveria
estas questões e tiraria pelo menos a inflação
inercial de 30% ao mês, funcionaria em linhas gerais
assim:
A. Dia primeiro
de setembro, data previamente divulgada com um mês de
antecedência, todos os preços seriam transformados
em dólar. Os preços não seriam congelados,
seriam simplesmente cotados em dólar, ao nível
de mercearia e supermercados inclusive. O pagamento seria
em cruzeiros pela taxa de câmbio do dia anterior. Não
seria uma dolarização da moeda, como na Argentina,
o dólar não circularia, nem parcialmente. Nem
tampouco seria uma âncora cambial, onde contratos em
cruzeiros possuiriam cláusula de correção
cambial, por não se tratar de um indexador de contratos
financeiros. Não é a estabilidade da moeda que
se procura aqui, mas a estabilidade da forma pela qual os
preços são contabilizados.
O que se procura é resgatar a estabilidade dos preços
e não da moeda, resgatar a noção de caro
e barato, elemento fundamental para uma estabilização
efetiva da economia.
B. Num primeiro
momento, os preços em dólar deverão cair,
na medida que as empresas criarem confiança de que
não se trata de um congelamento, nem a preparação
de um congelamento do câmbio. O governo atual possui
credibilidade para tanto. Caso contrário haverá
uma pequena inflação inicial nos preços
em dólar. A tendência porém é de
queda. Supermercados por exemplo, que embutiam 5 dias de inflação
para produtos que ficavam 5 dias nas prateleiras, embutirão
somente 1 dia de inflação, por utilizarmos o
câmbio do dia anterior. Isto significaria uma queda
dos preços em dólar de 4%. Os preços
a prazo cairão 30%, uma vez que em dólar o preço
a prazo é praticamente igual ao preço à
vista. Não haverá por esta razão perigo
de uma inflação em dólar. O câmbio
não será congelado.
C. No terceiro
ou quarto mês, dependendo da reação popular,
as pessoas voltarão a ter uma noção de
preços. Voltarão a ter a noção
de que um hamburguer custa entre 2,80 a 3,10 dólares,
dependendo do local. Voltaremos a ter esta noção
de preços sem traumas e congelamentos artificiais.
D. No quarto mês
ocorre o ponto diferente do plano, Cria-se uma moeda nova,
o cruzeiro verde, ou outro nome apropriado. O hamburger de
2,80 dólares passa a custar 2,80 CVs. As notas de cruzeiros
antigos deixam de ter valor , e ao contrário dos planos
anteriores, não poderão ser usadas. Precisarão
ser trocadas efetivamente nos bancos por cruzeiros verdes
à taxa de câmbio do dia D da conversão.
Exemplo: 1 cruzeiro verde para cada 87 cruzeiros antigos.
E. A reforma monetária
é a parte final do plano, não a parte inicial
do plano, como foi feito erradamente nos demais planos.
Embora o plano tenha alguns outros detalhes que veremos em
seguida, percebe-se que não houve congelamento, e ao
mesmo tempo os preços relativos da economia se ajustaram
nos três primeiros meses do plano, ao contrário
dos outros planos, onde os preços relativos de dispersaram.
A população adquiriu um sentimento de valor
e preços sem um custo maior para a economia e sem o
artificialismo do congelamento de preços. A inflação
inercial foi eliminada sem grandes traumas. Não há
a circulação de duas moedas ao mesmo tempo.
Provavelmente, este plano não eliminará a retomada
da inflação, pois todas as causas ainda não
foram eliminadas. Mas ao contrário dos outros planos,
este não gera inflação reprimida, que
normalmente explodia na parte final dos outros planos, no
descongelamento. Estaremos reduzindo a inflação
de 30% para 3% ao mês, patamar inclusive apropriado
para levar as demais medidas a bom termo.
Vamos continuar
F. Todos os depósitos e contas bancárias serão
convertidos em dólar no primeiro dia do plano, primeiro
de junho. Todos os DOCs e transferências bancárias
serão feitos em dólar. Os bancos perderão
os seus ganhos inflacionários, e as pessoas deixarão
de perder 1% ao dia, resgatando a confiança e credibilidade
do sistema financeiro. Não haverá necessidade
de correr para ativos reais, nem colocar em fundos indexados.
G. Todos os pagamentos
serão feitos em cruzeiros. Todas as retiradas bancárias
serão feitas em cruzeiros, convertidos à taxa
de câmbio do dia anterior. A moeda nacional continua
o cruzeiro. Aos bancos será permitido cobrar uma taxa
de serviço entre compra e venda, para amenizar e reduzir
as resistências ao plano. Em troca terão de arcar
com os prejuízos possíveis de um descolamento
e descasamento entre ativos e passivos nos 3 meses da fase
de transição.
H. Os contratos
a rigor não precisarão ser refeitos. Bastaria
converter a UFIR, o IGP-M, e a maioria dos indexadores de
contratos de aluguel etc. Não será necessário
refazer todos os contratos. Os contratos indexados em IGP
não precisariam ser indexados pelo dólar. Este
plano é um plano contábil mais do que outra
coisa. Ele se estende a toda economia, o que já ocorre
no setor de imóveis, carros importados, consultaria
etc.
I. Depois da conversão
de cruzeiros para cruzeiros novos, mantém-se intacto
os mecanismos de correção monetária.
Tiramos somente a inflação inercial e ainda
não é o momento de destruir as pontes como nos
planos anteriores. Provavelmente este plano terá de
ser efetuado mais de uma vez, num processo de sintonia fina.
Nosso primeiro passo é efetuar a sintonia bruta, para
depois efetuar a sintonia fina.
J. A forma de
acabar com a indexação não passa pela
sua eliminação pura, como foi feito em alguns
planos anteriores. A eliminação da indexação
se faz pela dilatação do período de indexação,
de mensal, para bimensal, para semestral, para anual e assim
por diante.
Os depósitos à vista crescerão e o recolhimento
compulsório ao Banco Central idem. O Governo reduzirá
a sua dívida onerosa, boa parte desta dívida
em outros países é simplesmente moeda. Isto
deverá seduzir o déficit público pela
metade, boa parte causado pelos juros elevados da dívida
pública. Os bancos que perdem assim o seu lucro inflacionário,
poderão aumentar o seu float para uma semana ou até
duas, como ocorre nos Estados Unidos, auxiliando neste intento
de transformar dívida em moeda em circulação.
K. O índice
geral de preços passa a ser coletado com base nos preços
a vista das principais matérias primas. Isto elimina
as distorções dos índices coletados ,
que superestimaram a inflação nos demais planos,
e causaram a sua derrocada. Ao contrário do que se
pensa, o que fracassou nos demais planos, foi o efeito de
superestimação da inflação que
ocorre na saída de um congelamento, e que gerou uma
rápida bola de neve de inflação ascendente.
A maioria dos economistas atribui esta escalada da inflação
ao fracasso dos inúmeros planos, e não a um
erro na metodologia empregada de coleta de preços,
que não prevê nem congelamentos nem descongelamentos.