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Plano Luca Paccioli

A inflação destrói todo tipo de referencial de caro e barato, o que por si a realimenta. Uma das razões para se eliminar a inflação é justamente resgatar o referencial de preços ao sistema de produção. Nunca se pensou o contrário: Resgatar o referencial de preços como uma pré-condição para a eliminação da inflação.

Ou seja, devolver ao povo brasileiro a noção de preços, do que realmente é caro e barato. Apesar de se noticiar que o pão subiu 28% no mês, nenhum leitor é capaz de dizer se de fato o preço do pão é mais caro ou mais barato do que um ano atrás, uma situação que por si só gera a inflação.

Devolver à economia uma proporcionalidade entre os preços, entre o pão e o leite, e que reflita a relativa escassez dos produtos entre si. Os congelamentos de preços fizeram justamente o contrário, distorceram o mecanismo de preços como efetivos sinalizadores da escassez dos produtos.

O plano que resolveria estas questões e tiraria pelo menos a inflação inercial de 30% ao mês, funcionaria em linhas gerais assim:

A. Dia primeiro de setembro, data previamente divulgada com um mês de antecedência, todos os preços seriam transformados em dólar. Os preços não seriam congelados, seriam simplesmente cotados em dólar, ao nível de mercearia e supermercados inclusive. O pagamento seria em cruzeiros pela taxa de câmbio do dia anterior. Não seria uma dolarização da moeda, como na Argentina, o dólar não circularia, nem parcialmente. Nem tampouco seria uma âncora cambial, onde contratos em cruzeiros possuiriam cláusula de correção cambial, por não se tratar de um indexador de contratos financeiros. Não é a estabilidade da moeda que se procura aqui, mas a estabilidade da forma pela qual os preços são contabilizados.
O que se procura é resgatar a estabilidade dos preços e não da moeda, resgatar a noção de caro e barato, elemento fundamental para uma estabilização efetiva da economia.

B. Num primeiro momento, os preços em dólar deverão cair, na medida que as empresas criarem confiança de que não se trata de um congelamento, nem a preparação de um congelamento do câmbio. O governo atual possui credibilidade para tanto. Caso contrário haverá uma pequena inflação inicial nos preços em dólar. A tendência porém é de queda. Supermercados por exemplo, que embutiam 5 dias de inflação para produtos que ficavam 5 dias nas prateleiras, embutirão somente 1 dia de inflação, por utilizarmos o câmbio do dia anterior. Isto significaria uma queda dos preços em dólar de 4%. Os preços a prazo cairão 30%, uma vez que em dólar o preço a prazo é praticamente igual ao preço à vista. Não haverá por esta razão perigo de uma inflação em dólar. O câmbio não será congelado.

C. No terceiro ou quarto mês, dependendo da reação popular, as pessoas voltarão a ter uma noção de preços. Voltarão a ter a noção de que um hamburguer custa entre 2,80 a 3,10 dólares, dependendo do local. Voltaremos a ter esta noção de preços sem traumas e congelamentos artificiais.

D. No quarto mês ocorre o ponto diferente do plano, Cria-se uma moeda nova, o cruzeiro verde, ou outro nome apropriado. O hamburger de 2,80 dólares passa a custar 2,80 CVs. As notas de cruzeiros antigos deixam de ter valor , e ao contrário dos planos anteriores, não poderão ser usadas. Precisarão ser trocadas efetivamente nos bancos por cruzeiros verdes à taxa de câmbio do dia D da conversão. Exemplo: 1 cruzeiro verde para cada 87 cruzeiros antigos.

E. A reforma monetária é a parte final do plano, não a parte inicial do plano, como foi feito erradamente nos demais planos.


Embora o plano tenha alguns outros detalhes que veremos em seguida, percebe-se que não houve congelamento, e ao mesmo tempo os preços relativos da economia se ajustaram nos três primeiros meses do plano, ao contrário dos outros planos, onde os preços relativos de dispersaram.


A população adquiriu um sentimento de valor e preços sem um custo maior para a economia e sem o artificialismo do congelamento de preços. A inflação inercial foi eliminada sem grandes traumas. Não há a circulação de duas moedas ao mesmo tempo.


Provavelmente, este plano não eliminará a retomada da inflação, pois todas as causas ainda não foram eliminadas. Mas ao contrário dos outros planos, este não gera inflação reprimida, que normalmente explodia na parte final dos outros planos, no descongelamento. Estaremos reduzindo a inflação de 30% para 3% ao mês, patamar inclusive apropriado para levar as demais medidas a bom termo.


Vamos continuar


F. Todos os depósitos e contas bancárias serão convertidos em dólar no primeiro dia do plano, primeiro de junho. Todos os DOCs e transferências bancárias serão feitos em dólar. Os bancos perderão os seus ganhos inflacionários, e as pessoas deixarão de perder 1% ao dia, resgatando a confiança e credibilidade do sistema financeiro. Não haverá necessidade de correr para ativos reais, nem colocar em fundos indexados.

G. Todos os pagamentos serão feitos em cruzeiros. Todas as retiradas bancárias serão feitas em cruzeiros, convertidos à taxa de câmbio do dia anterior. A moeda nacional continua o cruzeiro. Aos bancos será permitido cobrar uma taxa de serviço entre compra e venda, para amenizar e reduzir as resistências ao plano. Em troca terão de arcar com os prejuízos possíveis de um descolamento e descasamento entre ativos e passivos nos 3 meses da fase de transição.

H. Os contratos a rigor não precisarão ser refeitos. Bastaria converter a UFIR, o IGP-M, e a maioria dos indexadores de contratos de aluguel etc. Não será necessário refazer todos os contratos. Os contratos indexados em IGP não precisariam ser indexados pelo dólar. Este plano é um plano contábil mais do que outra coisa. Ele se estende a toda economia, o que já ocorre no setor de imóveis, carros importados, consultaria etc.

I. Depois da conversão de cruzeiros para cruzeiros novos, mantém-se intacto os mecanismos de correção monetária. Tiramos somente a inflação inercial e ainda não é o momento de destruir as pontes como nos planos anteriores. Provavelmente este plano terá de ser efetuado mais de uma vez, num processo de sintonia fina. Nosso primeiro passo é efetuar a sintonia bruta, para depois efetuar a sintonia fina.

J. A forma de acabar com a indexação não passa pela sua eliminação pura, como foi feito em alguns planos anteriores. A eliminação da indexação se faz pela dilatação do período de indexação, de mensal, para bimensal, para semestral, para anual e assim por diante.


Os depósitos à vista crescerão e o recolhimento compulsório ao Banco Central idem. O Governo reduzirá a sua dívida onerosa, boa parte desta dívida em outros países é simplesmente moeda. Isto deverá seduzir o déficit público pela metade, boa parte causado pelos juros elevados da dívida pública. Os bancos que perdem assim o seu lucro inflacionário, poderão aumentar o seu float para uma semana ou até duas, como ocorre nos Estados Unidos, auxiliando neste intento de transformar dívida em moeda em circulação.

K. O índice geral de preços passa a ser coletado com base nos preços a vista das principais matérias primas. Isto elimina as distorções dos índices coletados , que superestimaram a inflação nos demais planos, e causaram a sua derrocada. Ao contrário do que se pensa, o que fracassou nos demais planos, foi o efeito de superestimação da inflação que ocorre na saída de um congelamento, e que gerou uma rápida bola de neve de inflação ascendente. A maioria dos economistas atribui esta escalada da inflação ao fracasso dos inúmeros planos, e não a um erro na metodologia empregada de coleta de preços, que não prevê nem congelamentos nem descongelamentos.

 

 

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fonte www.kanitz.com.br
 
 
 
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