Kanitz: "Ação
social de empresas enfraquece ONGs"
Stephen Kanitz, responsável
pelo site www.filantropia.org,
gosta de fazer previsões. Autor do livro O Brasil que dá
certo, no qual previa o sucesso do Plano Real, ele afirma ter
dito há 12 anos que o Brasil teria uma onda de responsabilidade
social de empresas.
Agora, Kanitz, professor aposentado
de economia da Universidade de São Paulo (USP), afirma
que esse movimento pode se transformar em uma bolha e estourar.
Para ele, as empresas não deveriam alardear o investimento
que fazem em ações sociais.
"Quem escolhe o projeto no qual a empresa vai investir é
o departamento de marketing. São projetos neoliberais.
As empresas dizem: O empresário sabe melhor, e é
ele quem vai determinar a agenda social de um país. Isso
é um absurdo. A agenda social tem que ser determinada pelo
Estado ou pelo indivíduo", afirmou, em entrevista
à BBC Brasil.
Segundo Kanitz, além de
não resolver os problemas a que se propõe combater,
o movimento de responsabilidade social está provocando
uma vítima direta: os projetos sociais bancados por ONGs
e outras entidades, que deixaram de receber doações,
já que as empresas preferem investir em seus próprios
programas.
Está na moda ser
responsável socialmente?
Stephen Kanitz
- Criou-se essa moda, porque ultimamente, pelo menos nos últimos
400 anos no Brasil, o social era administrado por ONGs e entidades
que se criavam para esse fim. Hoje ninguém fala mais em
uma das ONGs mais antigas do mundo, a Cruz de Malta, fundada no
ano de 1099 por uma ordem de cavaleiros, com o objetivo de ajudar
os pobres, especialmente aqueles com lepra. Hoje está todo
mundo interessado em ouvir o que as empresas fazem no social.
Estamos esquecendo o que as entidades fizeram nos últimos
900 anos.
Então as entidades
de filantropia estão destinadas a desaparecer?
Kanitz - Se depender
das empresas, sim. Porque o interesse de todas as empresas é
criar agora um projeto próprio, que permite que elas mostrem
aos jornalistas, que infelizmente estão cobrando isso.
É um erro do jornalismo brasileiro e mundial ficar cobrando:
"O que o senhor está fazendo pelo social?" Isso
está em parte fazendo com que as empresas procurem projetos
próprios para poder mostrar para os jornalistas. E o empresário
não entende disso. Alguns mal entendem o próprio
negócio. E eu acho meio difícil que uma empresa
de alumínio vá entender de creche ou de asilo para
leprosos. Para mim é bem claro: cada macaco no seu galho.
Estamos vendo esse culto das empresas socialmente responsáveis,
que pararam de doar para as entidades, criaram projetos próprios,
dos quais elas não entendem, que normalmente surgem do
departamento de marketing. Tem um estudo do Iser (Instituto de
Estudos da Religião) mostrando de onde surgiram os premiados
do Eco, que é da Câmara Brasil-Estados Unidos, que
já tem quase 20 anos. É uma pesquisa séria
e bem fundamentada, e ela descobriu com choque, há seis
anos, que a maioria começou no departamento de marketing.
O marketing descobriu o que é
um projeto legal, que o consumidor vai gostar. As empresas hoje
estão tirando pessoas habilitadas das entidades, pessoas
já treinadas. Para treinar um líder social, as ONGs
gastam de 10 a 12 anos de investimento. Estão tirando a
peso de ouro, e esse é o maior crime que eu vejo cometido
por essas empresas socialmente responsáveis, desorganizando
o que nós já tínhamos há 400 anos.
Então, por exemplo, os R$
200 mil que iam para um asilo de lepra que eu conheço,
agora são gastos na própria empresa: R$ 20 mil vão
para o diretor de responsabilidade social, que agora está
ganhando um salário legal, uns R$ 25 mil vão para
a agência de propaganda que vai fazer a divulgação
do projeto, o assessor de imprensa recebe R$ 10 mil. Vai ter um
anúncio em alguma revista, que vai custar no mínimo
R$ 60 mil, tudo para ensinar balé a favelados, e o resto
do dinheiro do projeto vai para o professor de balé. E
a lepra no Brasil está crescendo. O Brasil, por incrível
que pareça, tem mais lepra do que a Índia. Esse
é o resultado da valorização das empresas
socialmente responsáveis.
Que critério o departamento
de marketing das empresas usa para escolher qual área deve
ser beneficiada com um projeto social?
Kanitz - Nos últimos
seis anos, nenhum diretor de marketing nos procurou para saber
do que as entidades mais precisam. É muito fácil
você ser bonzinho com o dinheiro dos outros. Em um país
pobre como o Brasil, que tem tanta carência social, eu tenho
uma lista de 500 itens de que as entidades precisam. E, se a gente
não seguir essas prioridades, nós não vamos
resolver esses problemas.
Tem um curso de inglês que
está ensinando inglês para a periferia. É
ótimo, mas não é prioridade. Eu conversei
com o dono dessa escola de inglês, e ele me disse: "Mas
é isso o que a gente sabe fazer". Se toda empresa
só fizer o que sabe fazer, nós não vamos
resolver os problemas sociais. O que a Alcoa vai fazer: vai dar
alumínio para as entidades? Não. Quem vai combater
a prostituição infantil? Qual é a empresa
brasileira especializada em prostituição infantil?
Não tem. Por isso é que eu digo: cada macaco no
seu galho. As empresas deveriam estar fazendo seus produtos mais
baratos, sem destruir a ecologia, tendo lucro, e os acionistas,
com esses lucros, devem ser incentivados a fazer doações.
Quais são as áreas
que dão maior ibope quando uma empresa decide ser socialmente
responsável?