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Entrevista
: O Futuro é Preto-e-Branco?
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Administrador
diz que Brasil precisa mudar vários paradigmas antes que
seja tarde demais
O
administrador Stephen Kanitz se notabiliza por enxergar aspectos
que fogem ao senso comum. Foi assim em 1993, quando lançou
o livro O Brasil que Dá Certo, em que apontava uma
série de fatores que fariam o país viver um ciclo
de crescimento. A obra freqüentou as listas de mais vendidos
e um dos seus méritos foi justamente chamar a atenção
para caminhos que estavam sendo traçados a despeito de
toda a incerteza e turbulência que marcavam o período.
Kanitz foi também um dos primeiros a abordar a importância
e a pujança do terceiro setor no país. Criou o prêmio
Bem Eficiente, destinado a entidades sem fins lucrativos que fossem
administrativa e socialmente competentes.
Numa conversa em seu escritório em São Paulo, Kanitz
fez alertas importantes sobre os rumos da economia brasileira
e criticou as empresas que embarcam na onda da responsabilidade
social com o objetivo de promover suas marcas.
MELHOR - Uma de suas
palestras se intitula O segredo está nos pequenos detalhes.
Que detalhes são esses?
Kanitz - Se você olhar a história do Brasil
nos últimos 40 anos, vai ver um país com dezenas
de planos econômicos e todos morreram por um pequeno detalhe.
Nós temos uma visão positivista do Brasil, que diz
que é preciso um grande plano, repensar o país,
um grande projeto. Não é por aí. Não
são os grandes projetos que dão certo, mas sim os
pequenos detalhes. Quem vai mudar o mundo é cada um de
nós, fazendo pequenas inovações. Ninguém
vai ser brilhante, não vai ganhar o Prêmio Nobel,
mas se 176 milhões de brasileiros derem uma pequena contribuição,
todo mundo vai ser muito mais feliz, se sentir incluído
na sociedade e melhorar esse país. As grandes soluções
feitas por gênios são coisas do século passado,
hoje é a equipe. Um exemplo é a internet, que é
a soma do que várias pessoas inventaram. A pessoa que inventou
o "@" no e-mail não ganhou absolutamente nada.
Quem inventou o e-mail também não. Às vezes,
quem ganha é quem faz a última inovação,
e essa é uma das injustiças do capitalismo moderno.
MELHOR - Para que esses
detalhes sejam observados, é preciso a adesão dos
funcionários. Como se obtém esse nível de
envolvimento?
Kanitz - Todo mundo quer ser reconhecido. Ninguém
está atrás de dinheiro tanto quanto se imagina.
Há uma pesquisa no meu site: "Se você ganhasse
60 milhões de reais: a) você largaria tudo e viveria
em Ilhabela, b) montaria uma empresa." Para minha surpresa,
70% responderam que montariam uma empresa. Por que alguém
que está obviamente garantido para o resto da vida vai
se arriscar a montar um negócio? Porque querem ser reconhecidos
por algo, querem produzir. Dinheiro não é tudo na
vida, nem o objetivo final. O que os empresários brasileiros,
o governo e, especialmente, os economistas não têm
feito é criar uma sociedade em que cada um faz a sua parte,
em que um ouve o outro, na qual é permitido dar a pequena
contribuição. E não aqueles grandes planos
elaborados por cinco gênios de Chicago, que é o paradigma
que o Brasil está vivendo até hoje. Vamos ter uma
eleição em que se discutem sete ou oito grandes
planos de governo. E não temos um candidato que diga: "Não,
pessoal. Não é o governo que muda um país,
nós vamos potencializar o ser humano. Vamos permitir que
cada um possa criar o seu pequeno negócio, desenvolver
o seu próprio sonho." Não é o Brasil
que precisa sonhar, é preciso realizar o sonho de cada
um.
MELHOR - Um dos discursos
recorrentes nas empresas é que "gente é o que
faz a diferença". O senhor concorda com essa afirmação?
Kanitz - Existe um discurso que nem sempre é implantado.
Pode-se falar "gente é o que faz a diferença"
e o chefe não ouve o subordinado. Pode-se ter uma subsidiária
de uma empresa americana que diz "gente é o que faz
a diferença", mas todos os planos vêm diretamente
de Nova York. Tem até aquela frase: "Think global,
act local." O pensamento elaborado na matriz e as ações
feitas levando em consideração características
locais. Tenho dito que é exatamente o contrário:
"Think local, act global." É preciso ter
o pensamento em cada filial. Um brasileiro pensante pode achar
uma solução brilhante a ser usada na Turquia, na
Índia e na China. É típico da arrogância
americana achar que todo o thinking deve ser feito nos
EUA e que um brasileiro não possa pensar. Então,
essa história de que gente faz a diferença, faz
mesmo, mas não são todas as empresas que realmente
estão levando esse discurso para suas verdadeiras conseqüências.
MELHOR - Pode-se dizer
que existe um jeito brasileiro de se administrar?
Kanitz - Não é bem um jeito brasileiro de
administrar, mas, em 1993, escrevi um livro no qual eu previa
o sucesso do Plano Real e também que o grande filão
de crescimento do país seria o de produtos populares. Hoje,
as empresas estão percebendo isso. Somos um país
de baixa renda e precisamos fazer produtos específicos
para este segmento. Nós tivemos, durante 30 anos, uma política
de substituição de importações, que
era errada. Importo um carro GM dos EUA, faço barreiras
enormes e começo a produzi-lo internamente. Perceba o erro
desta estratégia. Só os ricos importavam. Na hora
em que você substitui a importação, está
fazendo carro para rico no Brasil e ficamos com a distribuição
da renda que temos no Brasil. É o contrário. É
preciso ter produtos que possam ser comprados pelo trabalhador
que fabrica o produto.
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MELHOR - Mas
isso não é se adaptar a uma distorção?
Em vez de aumentar a renda do trabalhador, se criam produtos que ele
tenha capacidade de adquirir?
Kanitz - Esse foi o erro dos economistas. Acham que é
preciso distribuir a renda primeiro, para que depois eles possam comprar
os produtos dos ricos. Eu digo que não. Não é
a renda que tem de ser distribuída, é a produção.
Temos de produzir bicicletas que o trabalhador possa comprar. Isso
vai fazer com que ele seja mais produtivo e mais eficiente e faça
produtos com maior qualidade. MELHOR
- Por quê?
Kanitz - É óbvio. Só se vai ter trabalhador
comprometido com a produção se ele puder comprar o
produto do seu trabalho. Isso pode até parecer uma frase
marxista, mas quem advogou isso foi Henry Ford. Ele dobrou o salário
dos seus funcionários e criou inimizades na época,
foi até acusado de ser comunista. E ele falou: "Eu quero
que o meu trabalhador possa comprar o Ford T, porque aí ele
estará motivado." Vai fazer com esmero, ele vai pensar
em como consertar o carro, fazer as inovações. E espero
que ele não fique só nesse carro. Ele vai ganhar mais,
ser mais produtivo, sacar soluções. O brasileiro que
trabalha na Mercedes vai a pé para o trabalho. Na Alemanha,
o trabalhador vai de Mercedes própria. Usada, talvez. Quando
tem um barulhinho no capô de trás, ele já vai
pensando: "O que está acontecendo?" Quando chega
na empresa, vai direto para o responsável, muitas vezes com
a solução. O presidente da Mercedes nem fica sabendo.
Quando o trabalhador usa o produto que fabrica, tem-se um paradigma
maravilhoso. Há quem queira que a gente exporte produtos
com alto valor adicionado. A minha proposta é de fazer produtos
populares, que realmente são de baixo valor agregado, vai
ter de fazer produção em massa - que é um saco,
eu sei-, vai-se ter margens muito pequenas e ganhar no volume. Mas,
por alguma razão, os economistas brasileiros são contra
isso, ou não entendem de administração ou não
são conhecedores de como resolver produções
em massa. Aí preferem o outro paradigma: gastar em pesquisa
e tecnologia, ter universidades fortes e grandes que fazem pesquisas.
Mas isso não funciona no Brasil, ainda. Espero que daqui
a 50 anos isso mude, não vamos ficar pobres o resto da vida.
O carro popular no Brasil de 12 mil reais não é popular.
Carro popular para mim é uma bicicleta com motor. E quando
essa população estiver andando de bicicleta com motor,
vai querer uma lambreta, depois, uma Rormiseta, um Uno Mille e depois
um Tempra. Mas o Brasil começou produzindo Tempra.
MELHOR -Assim ficaríamos
menos vulneráveis aos humores do mercado internacional?
Kanitz - Não só isso, mas 80% do mundo é
pobre. Quando tivermos os produtos populares, teremos o mundo para
exportar. Não o mundo americano, mas o mundo chinês,
o indiano, o turco, o grego. Estamos perdendo anos preciosos. A
China está crescendo 9% ao ano com essa política.
MELHOR - Existem as empresas
brasileiras que descobriram essas soluções brasileiras?
Kanitz - Há dezenas. O Madalosso, por exemplo, é
um restaurante de Curitiba que se tomou uma das maiores franquias
de slow food do mundo. Pegando exemplos americanos de produtos
de baixa renda, o McDonald's seria um bom caso. Faz um hambúrguer
bem mais barato do que vários hamburgões no Brasil.
Mas olha que interessante: com exceção do McDonald's,
nenhuma outra franquia de fast food deu certo no Brasil.
Por quê? Quando se entra no mercado de baixa renda, não
é só fazer produto barato, como muita gente acha.
É preciso pensar em toda a organização de uma
forma diferente e conceber um produto desde o início. O fast
food é um conceito de rico. O rico é que quer
a sua comida fast, porque depois ele quer ir para o cinema,
fazer compras. O mercado de baixa renda não quer sair correndo.
Ele já ficou no bandejão a semana inteira. Ele quer
se sentar à mesa, ser servido por um garçom. Então,
o Madalosso fez um restaurante com 4 mil lugares, onde o cliente
permanece por duas ou três horas, a refeição
custa o dobro da do McDonald's, mas fica lotado. Essa idéia
de copiar idéias americanas pode ser totalmente equivocada.
Uma das razões do subdesenvolvimento brasileiro é
justamente nunca termos criado a capacidade de enxergar o Brasil.
Se você pegar Casa-Grande & Senzala, de Gilberto
Freyre, verá que o livro menciona a capacidade do brasileiro
de imitar. Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de
Hollanda, fala que somos "estrangeiros na nossa própria
terra". Só lemos livros estrangeiros. O que tem de sociólogo
que nunca entrou em favela, de economista que nunca emitiu uma duplicata,
isso tem de mudar. Uma característica do brasileiro é
a sua baixa auto-estima, porque não observa a sua realidade,
E fica inseguro: "Ah, eu não entendo mais nada que acontece
no Brasil," Claro! Fica lendo (John) Keynes, (Milton) Friedman,
(Karl) Marx, não vai entender mesmo.
MELHOR - o que pode ser
citado como exemplo de algo bem-feito aqui no Brasil que pode ser
exportado?
Kanitz - A venda por quilo foi uma coisa que começou
no Brasil e, agora, existem empresas americanas fazendo isso. A
Procter & Gamble acabou fazendo uma fralda descartável
popular, e houve um certo embate com a matriz. A conciliação
foi quando se falou: "Nós não vamos baixar a
qualidade em higiene." Então, não é achar
que precisa baixar a qualidade. Tem de se dar a qualidade correta,
entregar um produto honesto, não é para vender itens
que vão quebrar no dia seguinte. É vender um produto
adequado à exigência do consumidor naquele momento.
Nem quero que se venda uma TV barata para o brasileiro que dure
20 anos, porque eu não quero que ele seja pobre por 20 anos.
Entre uma TV de 200 reais que dure dez anos e outra de 100 reais
que dure cinco anos, num país em que as taxas de juros são
extremamente elevadas, é melhor a de 100 reais e depois comprar
de novo outra de 100 reais para mais cinco anos, porque você
vai ganhar muito mais com os juros nesses cinco anos com a economia
que fez. Em países com taxas de juros elevadas, sob o aspecto
da racionalidade financeira, nem se deve fazer produtos que durem
mais a um preço maior.
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MELHOR -
Muito se fala de intuição, criatividade, pensamento
não-linear no mundo das empresas. Entretanto, diante de qualquer
incerteza, a tendência é se encolher e esperar o que
vai acontecer. Vide apagão, 11 de setembro, Argentina. As
empresas, acostumadas com a lógica, ainda não sabem
se movimentar diante das incertezas?
Kanitz - De 1964 para cá, a cultura que acabou dominando
o pensamento empresarial brasileiro era a do economista que tende
a prever o futuro. A tentativa é de prever o futuro para
evitar que os sinais negativos afetem a sua empresa. Aí faz
hedge contra inflação, contra desvalorização
cambial, atitudes defensivas por definição. A visão
americana seguiu o paradigma do administrador, que não parte
da idéia de prever o futuro, mas de fazer o futuro. "Vamos
decidir o que a gente quer fazer." Para não parecer
arrogante, nós, administradores, muitas vezes fracassamos.
Não estou dizendo que só porque o administrador decide
fazer o futuro que ele vai conseguir. Três quartos das empresas
quebram a cara, mas é uma visão diferente. Não
fica na defensiva, o administrador é mais proativo. O Brasil
ainda não é um país que pensa administrativamente,
mas isso está mudando. Uma das previsões que fiz no
meu livro O Brasil que Dá Certo era de que a era dos
economistas ia começar a morrer e ia surgir a era dos administradores.
Isso se vê claramente nas faculdades. Em 1994, tínhamos
360 faculdades de administração, em 2003 teremos 1.600.
Como demora quatro, cinco anos para produzir o primeiro aluno, acho
que a partir de 2003 esse país começa a mudar de paradigma.
Vai ter também muito administrador de quinta categoria sendo
formado, mas acho que a visão brasileira vai começar
a mudar. Primeiro: que o futuro é feito. Segundo: que o lucro
não é pecado. Que produtividade é importante,
que reduzir custos é essencial. Coisas que não estão
no ideário do economista.
MELHOR - Não?
Kanltz - Você não vê economista com a
intenção de fabricar produtos que durem mais tempo.
Num país pobre. acho que precisamos reduzir a taxa de juros
rapidamente e aí começar a fazer produtos que durem
20 anos. Mas, para o economista, um carro que dura dois anos ou
um carro que dura 20 anos entra no PIB como sendo um carro. Você
nunca vê um programa de governo que incentive a durabilidade
de produtos como fogão, que seria essencial para uma nação
pobre. Com o tempo, e todo mundo tendo fogão, podemos entrar
na guerra livre que os americanos têm, que é até
exagerada. Hoje, como todo mundo tem fogão, a única
forma de fazer com que a pessoa tenha um novo é obsoletando
o fogão que está lá. Num mundo que está
com sérios problemas ecológicos, criar uma visão
dessas é um convite ao desperdício. Celular dura oito
meses e já estão jogando fora. Isso tem de ser mais
comedido e a única forma de melhorar a pobreza do mundo é
começar a discutir a durabilidade dos produtos.
MELHOR - Qual a maior distância
que o senhor observa entre o que se fala e o que se pratica nas
empresas?
Kanitz - Hoje é a idéia da responsabilidade
social. A média das empresas brasileiras gasta 0,1% das suas
receitas com o social. Uma empresa brasileira tende a pagar 48%
de sua produção em impostos. Então, contribuindo
com 48% para o governo resolver os problemas sociais - mesmo assim
ele não consegue -, como é que gastando mais 0,1%
vai resolver os problemas a ponto de dizer que é uma empresa
socialmente responsável? As empresas hoje estão muito
preocupadas em abraçar causas mercadologicamente corretas.
Nenhuma quer saber de velhos, de portadores de hanseníase
ou de câncer, de prostituição infantil, de discriminação
racial porque são considerados pelos diretores de marketing
como áreas problemáticas. Todo diretor de marketing
sonha em achar alguma causa em educação - que já
era função do Estado - ou de criança ou de
ecologia. As empresas vão perceber que quem assume responsabilidades
será responsabilizado. E a sociedade vai cobrar dessas empresas
"socialmente responsáveis" os resultados. Gastando
0,1% não vão conseguir muitos resultados a não
ser a perfumaria de marketing. Isso vai ser perigoso para as empresas
que foram imprudentes nessa área. Eu vejo a solução
americana mais ética, na qual a responsabilidade não
é da empresa, mas do indivíduo. Bill Gates não
criou a Fundação Microsoft, criou a Fundação
Bill Gates e não faz marketing porque a própria palavra
"fundação" já diz tudo. Ele não
distribui computadores com a intenção de depois faturar
em cima do software. Ele distribui vacinas para o Terceiro Mundo
porque acha isso prioritário. Não existe a Fundação
HP, mas duas grandes fundações, a do Mr. Hewlett e
a do Mr. Packard. Eles assumem responsabilidades como indivíduos.
Pegam os problemas mais cabeludos porque não vão afetar
a marca HP. E aí eu tenho de concordar, um banco brasileiro
não pode abraçar a causa de abuso sexual porque é
uma marca construída ao longo de 70 anos e não pode
estar associado a um problema desses, causa um certo frisson. Agora,
a Associação Brasileira Contra o Abuso Sexual tem
orgulho dessa marca, quer ser conhecida por isso. E, hoje, as empresas
brasileiras pararam de doar para essas entidades, estão querendo
criar suas fundações próprias para incentivar
suas marcas. Estão roubando pessoas do setor, pagando salários
altíssimos, porque querem fazer isso com urgência.
Metade do dinheiro está indo para o marketing do projeto,
para a agência, para o veículo de propaganda e para
o consultor de marketing, e os recursos minguaram para as entidades
que estão lutando há anos. As causas problemáticas
estão sendo evitadas por não serem favorecedoras da
marca.
MELHOR - O que acontecerá
com as empresas que priorizam o marketing?
Kanitz - Todas as religiões do mundo advogam que você
deve ajudar os outros sem alarde. A benemerência não
pode ser alardeada, pois pode ter conseqüências nefastas.
A empresa que vai receber um prêmio porque é socialmente
responsável obviamente não leu nenhuma das grandes
filosofias religiosas. Nessa área é preciso, sem dúvida,
ser low profile.
MELHOR - E aquele discurso
de que o consumidor na hora de optar por um produto ou serviço
vai escolher o de uma empresa socialmente responsável?
Kanitz - Eu já fiz essa pesquisa. Existe a intenção,
mas a compra efetiva, para mim, não é algo claro.
As pessoas dizem: "Eu compraria um produto mais caro que ajuda
uma instituição ecológica" mas, na hora
do "vamos ver", ele escolhe o produto mais barato. O consumidor
não é bobo, sabe que está embutido no preço
do produto toda a ação social da empresa. E a instituição
escolhida pelo departamento de marketing pode não ser a instituição
dos sonhos do consumidor. Ele poderia muito bem falar: "Me
dá 10% de desconto e eu vou destinar esse meu dinheiro para
a entidade do lado da minha casa." Entre o departamento de
marketing e o indivíduo escolher a causa, eu acho que, com
o tempo, o consumidor vai dizer: "escolha por escolha, eu escolho
melhor".
MELHOR - O que mais o irrita
no ambiente empresarial?
Kanitz - O grande erro do empresário brasileiro, ao
contrário dos do mundo inteiro, é que ele quer maximizar
controle acionário, prefere ter 100% de uma empresa pequena
do que 0,16% de uma Microsoft. Quando o Bill Gates passou de 51%
de controle para 49,9%, talvez nem tenha percebido o dia em que
isso aconteceu. Acho que ele nunca imaginou a família Gates
detendo o controle da empresa por gerações e gerações.
Aqui, as empresas são pequenas porque não dá
para crescer rapidamente só com o dinheiro da família.
Os lucros auferidos são reinvestidos e, por isso, as empresas
precisam de margens de lucros estratosféricas. Por isso,
a esquerda odeia o capitalismo. Não é o capitalismo
que está errado, é a visão brasileira de querer
capitalismo sem capital. O máximo que você vai crescer
é só o que os seus lucros permitirem. Na hora que
se tem a globalização que tivemos com o Fernando Henrique
e as margens de lucro despencaram, as empresas brasileiras pararam
de crescer. E não nos permitem, eu e você, investir
nelas. A secretária do Bill Gates investiu logo no início
na Microsoft e é trilhardária. Ele pemitiu ao funcionário
comprar ações da companhia onde trabalha. É
assim no mundo inteiro, menos no Brasil. Eu nunca vi um político
de esquerda levantar essa bandeira. Por quê? Porque não
quer que o trabalhador seja o seu próprio capitalista. Os
EUA são o país mais socialista do mundo. Quase 50%
das empresas americanas estão na mão dos sindicatos
trabalhistas, 49% na mão de viúvas de funcionários
e acho que só 5% estão na mão dos Bill Gates
da vida. E a esquerda fica falando em participação
de lucro. Não quero parte do lucro, ganha-se muito mais tendo
parte da empresa. Nos EUA, o trabalhador pode comprar stock options,
pode comprar a crédito, não precisa nem colocar dinheiro.
Quando ele aumenta o lucro da empresa em 1%, aumenta em 36 vezes
por causa dos P/Ls (índice preço-Iucro) que são
muito elevados nos EUA, porque todo mundo tem direito a comprar.
No Brasil, e o governo FHC com a Lei das S.A. privilegiou essa mentalidade
de maximização do controle acionário em detrimento
da maximização do valor da empresa, temos uma Bolsa
de Valores que está morrendo. Não conheço país
que tenha dado certo sem o mercado de capital. O seu filho, daqui
a dez anos, vai ter uma brilhante idéia e não vai
ter um mercado de capitais com capitalistas dispostos a financiá-la.
Ele terá de ir a Nova York tentar vendê-la. Essa foi
a falta de visão: combater a idéia do capitalismo,
destruindo, inclusive, o capital nacional, em vez de um discurso
mais moderno de que o capitalismo faz parte do mundo e de que até
países socialistas precisam de capital. Para gerar emprego,
é necessário ter, no núnimo, 30 mil reais por
vaga, porque são as mesas, as cadeiras, o computador. Antes
de começar a pagar um funcionário, alguém tem
de investir em equipamento, porque só de enxada não
dá mais para investir em ninguém. Até o MST
já percebeu que é preciso ter o capital inicial, não
é só a terra, precisa do trator, capital de giro,
o estoque de sementes, e nós estamos com um governo que destruiu
o mercado de capitais do Brasil.
MELHOR - Mas há
pouco falavase de stock options como fator de atração
e retenção de talentos.
Kanitz - Observe a Bolsa. Tínhamos 260 empresas há
cinco anos, agora são 40. E daqui a dois anos serão
30, e daqui a cinco anos, dez. A Índia tem 6 mil empresas.
MELHOR - Estamos na UTI
assim com essa passividade?
Kanltz - Nós não somos uma nação
de administradores. Daqui a cinco, teremos essas 1.600 faculdades
soltando esse tipo de alerta. Eu sou uma andorinha que não
faz verão, mas meu medo é que quando esse discurso
tiver mais força, já tenhamos escolhido o caminho
sem volta. O Brasil está acumulando problemas e não
os está resolvendo. Todos os países têm problemas,
mas a diferença é que eles resolvem e nós acumulamos.
Ainda não fizemos a reforma tributária. a reforma
política e vai indo, vai indo e vamos decaindo, como a Argentina.
MELHOR - Hoje não
haveria o volume dois de O Brasil que Dá Certo?
Kanitz - Eu falei que o Brasil ia dar certo até 2003.
Não errei. Eu já sabia que teríamos problemas,
um deles é que deveríamos fazer a reforma previdenciária
e, no ano de 2003, vamos ver esse problema nos atrapalhando cada
vez mais. O Brasil não gera poupança. Os outros países
geram poupança facilmente. Cada geração que
aparece acumula capital para a sua velhice. Então, surgiram
nos EUA os grandes fundos de pensão, gerados coletivamente,
solidariamente, para quando os trabalhadores estiverem velhos usarem
esse capital. No Brasil, optamos por esse modelo de jovens pagando
para os velhos poderem se aposentar, achando que a próxima
geração fará o mesmo, apesar da brutal queda
de natalidade que vem ocorrendo. Em 2030, a relação
de velhos e jovens será de um para um. Não sei como
o velho fará para se sustentar, já que o jovem lutará
com unhas e dentes para ter a sua própria renda. Hoje estamos
com um problema que é a relação de 1,6 trabalhadores
jovens para cada velho se aposentar. Começa o problema por
aí, razão pela qual não temos poupança
e pela qual os juros são elevados.
MELHOR -E os outros fatores
de crescimento apontados no livro não têm um efeito
prolongado.
Kanitz - Sem dúvida. Isso está continuando.
O Brasil não está com problema de desemprego. O desemprego
nacional é de 6,2%, que é extremamente baixo. Nos
EUA, com 4% eles já entram em pânico. Mas 4% é
um erro estatístico, porque todo mundo troca de emprego a
cada oito anos por lá. Nessa troca, tira três meses
de férias e, quando o recenseador americano pergunta, ele
diz que está desempregado, mesmo que dali a dois meses esteja
em um novo emprego. Então, 4%, na realidade, é quase
zero. No Brasil, eu acho que esses 6% é quase zero. Aqui
a gente troca a cada quatro anos ou menos por causa do FGTS. Depois
de três anos, o pessoal está doido para pôr a
mão no FGTS e torce para ser despedido. Se a cada quatro
anos você perguntar a 25% da população se estão
desempregados, vão dizer que sim. Então, 6% não
é taxa tão elevada, o problema é em grandes
cidades como São Paulo, onde a taxa está em 19%, o
que é absolutamente inaceitável. Não se fez
uma política brasileira que favorecesse pessoas pobres isoladas
em São Paulo a mudarem para o interior. Em vez de pagar uma
renda mínima para a pessoa ficar em São Paulo, eu
daria uma renda mínima para que ela se mudasse para o interior
e pagaria uma renda mínima por um ou dois anos nessa nova
cidade. Ela não vai achar emprego facilmente, mas terá
dois anos para procurar algo. Dar uma renda mínima para alguém
aqui em São Paulo é mantê-lo na renda mínima,
vai ficar sempre dependente.
MELHOR - Desde o período
em que o livro foi escrito, houve alguns avanços, mas agora
estaríamos mais próximos de reeditar um caso como
o da Argentina?
Kanitz - Esses fenômenos sociais demoram. A chance
de o Brasil virar uma Argentina existe, mas demoraria uns dez anos
de continuados fracassos e erros de avaliação. Como
te falei, 1.600 faculdades de administração têm
de contribuir efetivamente para a sociedade brasileira. Nós
vamos ter, de fato, administradores e espero que, mais dia, menos
dia, tenhamos 18 ministros formados em administração
de empresas nesse país e não 18 ministros formados
em economia. Por sinal, o FHC colocou 12 ministros formados em economia,
o que é um avanço em relação a ministros
políticos que só sabiam de política. Economista,
para o mal ou para o bem, tem uma visão que pode entender
esse discurso. O problema é que, normalmente, não
é treinado nessa ciência e está com um ministério
de 6 mil pessoas e nunca estudou organização &
métodos, relações de trabalho ou nunca tocou
uma contabilidade. Ele tem sérios defeitos educacionais,
mas o assunto economia tem muito de empresas, e ele consegue entender
o que é um balanço, então o diálogo
é muito melhor do que com um político, que de nada
disso saberia.
Entrevista
a Paulo Jebaili - Revista Melhor,
Junho de 2002, nº 181
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